"Ópera do Malandro" chega a São Paulo

Ópera do Malandro, de Chico Buarque de Holanda, um dos grandes musicais nacionais, chega a SP depois de sucesso retumbante no Rio e estréia nesta quinta no Tom Brasil Nações Unidas, na zona sul da cidade, com um elenco de 20 atores e 12 músicos. "Foi um fenômeno, pois lotamos um teatro de quase 700lugares durante dez meses", orgulha-se a atriz Lucinha Lins. A Ópera do Malandro foi finalizada pelo compositor em1978 e baseada na Ópera dos Três Vinténs, escrita 50 anosantes, por Bertolt Brecht e Kurt Weil, que, por sua vez, seinspiraram na Ópera dos Mendigos, de John Gay, lançada em1728. Chico Buarque, aliás, deu carta-branca a Botelho e aCharles Möeller, responsável pela direção, cenários e figurinosdo musical. A dupla, que já criou espetáculos notáveis comoCompany e Suburbano Coração, manteve-se fiel ao textooriginal, incorporando apenas as canções do filme: A Volta doMalandro, Palavra de Mulher, Desafio do Malandro eMuchachas de Copacabana. Mas o que o público que vai ao teatro quer mesmo écantarolar baixinho clássicos como Folhetim, O Meu Amor,Geni e o Zepelim, entre outros, que ganharam vida própria nainterpretação de cantores profissionais. A peça conta a história do casal Fernandes de Duran(Mauro Mendonça) e Vitória Régia (Lucinha Lins), proprietáriosde um bordel da Lapa carioca, freqüentado por bandidos epoliciais e onde a relação entre a lei e o crime é promíscua.Duran e Vitória são os pais de Teresinha (Soraya Ravenle),menina delicada que foi enviada para o exterior para quecrescesse longe da bandidagem. Ao voltar, porém, Teresinhacasa-se com o malandro Max Overseas (Alexandre Schumacher), sobas bênçãos do inspetor Chaves, o Tigrão (Cláudio Tovar). E amocinha acaba por revelar um inesperado talento para o submundoao assumir o controle do contrabando. Outros personagens memoráveis são Lúcia (AlessandraMaestrini), rival de Teresinha, e o travesti Geni, apaixonadopelo delegado da cidade. Na atual montagem, dois atoresrevezam-se na interpretação de Geni. O motivo é uma exigênciamédica - no ano passado, três dias antes da estréia, o barítonoSandro Christopher foi surpreendido por problemas cardíacos esubstituído, às pressas, por Thelmo Fernandes. Desde então, elesse alternam no papel. Christopher, aliás, garante não sentirgrandes diferenças por trocar árias por canções populares. "Naverdade, comecei minha carreira no teatro e acabei fazendocarreira na ópera", conta ele que, apesar de cantar apenas umamúsica, consegue, no final, soltar sua voz de barítono."Aproveito para ficar junto do coro, que interpreta uma cançãoem tom de ópera." Chico Buarque acompanhou um ensaio geral antes daestréia e se emocionou com a "entrega" do elenco aospersonagens. Restrições? Pouca coisa: "Ele pediu apenas quecortássemos alguns palavrões e grosserias que hoje não funcionammais", conta Botelho. O compositor foi também à estréia carioca- escondido, claro. E conseguiu medir a paixão que suamalandragem ainda desperta no público.CD da trilha do espetáculo decepciona, segundo o crítico Lauro Lisboa GarciaAs canções que Chico Buarque compôspara Ópera do Malandro estão entre seus feitos mais geniaisdos anos 70 e ganharam registros insuperáveis nas vozes de gentecomo Maria Bethânia, Zizi Possi, Gal Costa, Ney Matogrosso, ElbaRamalho e do próprio Chico, sozinho ou acompanhado de Moreira daSilva, Alcione, Marlene, A Cor do Som. O quarto CD da ópera (gravadora Biscoito Fino), com o elenco da montagematual, enfrenta problemas. Há o agravante de ser ao vivo,portanto, com os inevitáveis aplausos automáticos. Além disso,as interpretações são caricatas e excessivas, vários tons acimado suportável numa sala de estar. Deve-se ressalvar que são atores que cantam e cujasvozes podem funcionar bem no palco, não em disco. O espectadorque sai empolgado do teatro e acaba levando o CD para casa comolembrança, provavelmente vai se decepcionar. As faixas em que sejuntam vozes masculinas (como Tango do Covil e Homenagem aoMalandro) são passáveis. A maioria, porém, é sofrível. Otalentoso Claudio Botelho, diretor musical da montagem, já fezmelhor com canções de Chico em Suburbano Coração, no palco eem disco.Ópera do Malandro. De Chico Buarque. Direção de Charles Möeller.Direção musical de Cláudio Botelho. 155 minutos (com intervalo).14 anos. Tom Brasil - Nações Unidas (2.400 lugares). RuaBragança Paulista, 1.281, (11) 2163-2100. Quinta a sábado,21h30; domingo, 19h30. De R$ 30 a R$ 80. Até 1.º/8

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