Opção radical é a sessão de sábado, às 23 horas

A história recente de São Paulo permeia os 15 anos de trajetória da Cia. Pessoal do Faroeste. Conduzido pelo diretor Paulo Faria, o grupo já recriou em seus espetáculos episódios marcantes da cidade. Foi assim em obras como Os Crimes do Preto do Amaral (2006) e Meio Dia do Fim (2009). Com Homem Não Entra, que abre temporada neste fim de semana, a tônica é semelhante. Um fato real serve de centelha para uma criação que redimensiona nosso passado. Afinal, muitas vezes, a história oficial repousa sobre mentiras. E, nesse acerto de contas, se escondem mais caminhos para compreender o presente do que poderíamos supor.

O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2013 | 02h12

A verídica ação de Jânio Quadros, em 1953, para expulsar as prostitutas do Bom Retiro ganha tonalidades de Velho Oeste nesta montagem. Isso porque, ao encenador, não interessava apenas tratar desse tema. Mas explorar a linguagem do western. "Não existe registro de um faroeste no teatro. E a possibilidade de fazer isso me interessou", diz Faria. "Além disso existe uma óbvia conexão entre a perseguição aos índios, nos filmes, e aquela que sofreram as prostitutas em 1953 e sofrem hoje os usuários de crack."

Outro ponto que aproxima o espetáculo do clássico gênero cinematográfico americano é a produção de filmes da própria Boca do Lixo, que ficou conhecida como Western Feijoada. "Uma produção rejeitada pela crítica, mas muito importante", pontua o diretor.

Na trama, a prostituta Brigitte (Mel Lisboa) recorre à ajuda do pistoleiro Django (José Roberto Jardim). Expulsa da antiga zona de prostituição em que vivia, ela quer vingar-se do xerife Mardock. "Estou em busca de comunicação com o público. Quero discutir assuntos importantes, mas com uma linguagem que interesse às pessoas", considera Faria.

A conotação política do enredo é clara. E ganha contornos ainda mais evidentes pela localização da sede da companhia, em meio à Cracolândia, e pelo horário dos espetáculos. A sessão de sábado, batizada de maldita, acontece às 23 h. "Vir nesse horário é uma opção radical", diz ele. "Eu também teria receio, mas viria." / M.E.M.

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