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Fábio Porchat
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Tá tudo errado. E as coisas vão num crescente apavorante. Um estupro. 33 homens juntos fazendo isso. Pessoas em volta tirando fotos e filmando. Elas postam nas redes sociais. Muitas pessoas comentaram rindo. Eu não consigo compreender. De verdade. Talvez, por ser homem, nunca consiga. Prefiro que uma mulher fale por mim. Com vocês, as palavras da minha amiga Rosana Herman para quem, hoje (e sempre que necessário for), abri a coluna.

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2016 | 02h00

“Eu também queria começar meu dia lendo coisas divertidas e interessantes na coluna do Fábio Porchat, como faço todos os domingos, pra esquecer um pouco as notícias ruins da política, pra dar uma trégua nas informações sobre conflitos e tragédias humanas. Só que agora, nesse momento, a gente tem um compromisso, daquele tipo que não dá pra adiar. Até porque, se a gente não falar sobre isso agora, pode ser que não tenha mais coluna, ou jornal, ou domingo, ou sociedade. Por quê? Porque exatamente há uma semana, enquanto líamos o jornal, uma adolescente de dezesseis anos acordava, nua, no chão de um quarto desconhecido numa comunidade do Rio de Janeiro,  com trinta e três homens apontando pistolas e fuzis para ela, depois de ter sido dopada e estuprada por todos eles. Esse crime poderia ter ficado nas estatísticas, essa que diz que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no nosso país. Mas esse crime entrou pra sua vida, pra minha, pra vida de todos nós. Esse estupro coletivo foi gravado em vídeo pelos envolvidos, espalhado por WhatsApp, divulgado no Twitter, no Facebook, com prints, com selfies ao lado da garota quase morta, pelos que assistiram sem fazer nada, pelos que repassaram com risos e kks. Não era mais apenas uma notícia, um dado, uma estatística. Era uma dor indizível diante da barbárie. Uma revolta profunda que nos roubou o sono. Um incômodo chocante, que ultrapassou nosso medo individual gerando empatia e solidariedade de verdade, com o horror que esta menina viveu. Estamos todos chocados, sofrendo com ela, pela dor, pela humilhação que, dificilmente, será apagada de sua memória. Ou da nossa. A cultura de estupro em nosso país não é um assunto teórico, é um câncer que precisa ser extirpado. O machismo não é uma implicância, mas uma doença que precisa ser erradicada. Temos que dizer não. Não ao estupro, não ao machismo, não ao assédio, não ao abuso. Temos que conversar com nossos filhos, amigos, parentes, vizinhos, colegas, a partir de agora, sem parar, sempre que for possível. Temos que vigiar nossos próprios atos de intolerância, a todo instante. Porque se não mudarmos, todos, juntos, como sociedade, caminharemos para o fim. Se não fizermos absolutamente nada, se taparmos nossos olhos e ouvidos e nos calarmos, tudo continuará como está. E no domingo que vem, na próxima coluna, enquanto lemos nosso jornal, outras novecentos e dezesseis  mulheres terão sido estupradas na nossa pátria amada, Brasil."

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