Onze de nove

Hoje é onze de nove, exatamente dez anos depois. Assunto inescapável: o ataque às torres do World Trade Center de Nova York e ao Pentágono, em Washington, em 2001.

Luís Fernando Veríssimo, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2011 | 00h00

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Eu estava em Nova York, mas isto não é vantagem. Minutos depois do choque do primeiro avião com a primeira torre, todo o mundo estava em Nova York. Os choques aconteceram na era da comunicação instantânea, nenhum outro acontecimento na história teve uma cobertura igual, tão completa - e tão repetida. Dez anos depois as imagens repetidas ainda espantam. Quem estava lá não conseguiria esquecê-las mesmo que tentasse. E todo o mundo estava lá.

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A diferença entre realmente estar lá e não estar era o detalhe: a aspereza no ar e o cheiro estranho chegando até nós, horas depois dos ataques e a alguns quilômetros do local das ruínas fumegantes. Os caças sobrevoando Nova York, prontos para abater qualquer avião que demorasse a se identificar. As tropas motorizadas estacionadas ao longo da Quinta Avenida, provavelmente sabendo tão pouco sobre sua missão - repelir um ataque por terra partindo do Central Park? - quanto nós. E os boatos passando de boca em boca: ameaças de bomba na ponte George Washington, no edifício Empire State, na usina nuclear mais próxima. Por alguns dias depois dos atentados nada pareceria improvável.

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E por alguns dias depois dos atentados nos transformamos em racistas paranoicos. Eu também. Quando os voos comerciais recomeçaram e consegui lugar num avião para Londres, a espera no aeroporto foi tensa. Iríamos voar pela primeira vez com a consciência ainda fresca do que alguns malucos, ou um único maluco, poderiam fazer se assumissem o controle de um avião. Quem garantia que aterrissaríamos no aeroporto de Londres e não no Buckingham Palace? E os hipotéticos malucos podiam estar ali, na mesma sala de espera, prontos para entrar no mesmo avião. Confesso que examinei, abjetamente, cada rosto mais escuro à minha volta, à procura de sinais de fanatismo muçulmano. Até as crianças. Eu sei, eu sei. Imperdoável. Mas não era a hora para ser civilizado.

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Bush não foi um presidente à altura do momento. Chegou a personificar, nas suas primeiras aparições, a confusão que tomava conta do país. Mas deve-se fazer justiça ao Dobliu. Uma das suas primeiras preocupações foi isentar a comunidade árabe e muçulmana dos Estados Unidos do terror, para desencorajar atos de represália. Contam que, quando ainda não se sabia bem se haveria mais ataques, parte da sua equipe queria levar o presidente da Flórida, onde ele estava, para instalações seguras dentro de uma rocha no meio-oeste do país, construídas para o caso de guerra nuclear com a União Soviética, nos bons tempos em que o inimigo era claro. Bush preferiu voltar para Washington. Um dos mais paroquiais presidentes americanos, com zero interesse no resto do mundo, se vira subitamente impelido para a política internacional na sua forma mais explosiva. Não admira que parecesse perdido.

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Aterrissamos no aeroporto de Londres, não em nenhum monumento nacional. Ironia: quase todo o pessoal de alfândega e segurança do aeroporto de Londres era de origem indiana, da cor de terroristas. Uma cura rápida para paranoia e preconceito. Em Paris estava havendo uma mostra de quadros do Morandi, aquele italiano que pintava sempre os mesmos sólidos objetos em combinações diferentes. Fomos ver a exposição do Morandi no nosso primeiro dia em Paris. Eu estava com fome de coisas sólidas e permanentes.

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