Ônibus leva teatro às ruas

Empregada apaixonada pelo patrão é tema clássico de telenovela. Desta vez, a criada Serpina e o patrão Uberto são personagens de uma ópera de 1733 representando La Serva Padrona na lateral de um ônibus transformado em palco. É um ônibus comum reciclado e enfeitado com liras, colunas gregas, as máscaras da comédia e da tragédia, musas da dança e do teatro. O efeito é o de uma nave que estacionou por capricho, abriu a lateral (que virou palco) e despejou não cidadãos suados voltando do trabalho, mas arte e beleza na rua. Ao lado desse, há mais seis ônibus. Cada um transporta no miolo o segredo de um cotidiano feliz. Flautas, violinos, cavaquinhos, bailarinos, gnomos, fábulas. O nome de tudo isso junto é Comboio Cultural, um projeto que reúne 80 artistas do Brasil. O público que contempla mamulengos ao som de Villa-Lobos é paranaense e a idéia dessa iniciativa cultural foi do governador do Paraná, Jayme Lerner, com o objetivo de levar ao povo das ruas um tipo de cultura que é biscoito fino, normalmente acessível só às elites. Escola de samba - É um projeto de R$ 2,5 milhões. O desfile de apenas uma escola de samba, que se apresenta uma vez por ano durante 90 minutos, custa mais ou menos isso. O Comboio Cultural vai apresentar-se 1.300 vezes este ano nos 399 municípios parananeses. O primeiro ônibus traz a ópera de Gianbatista Pergolesi, já filmada por Carla Camuratti, La Serva Padrona. Os figurinos são da cenógrafa Rosa Magalhães, professora universitária e carnavalesca da Imperatriz Leopoldinense. O segundo é de música erudita, em que um quarteto e um quinteto de cordas tocam de Bach a Piazzola. O terceiro, de MPB, varia do maxixe ao som de gaita, com Lamartine Babo e Donga no repertório. O ônibus da dança vai do clássico ao teatro-revista, leva Tchaikovski, Laurie Anderson e Chico Melo quase ao mesmo tempo. O efeito é LSD no cérebro de uma criança de rua que nunca viu arte ao vivo. Há ônibus de versos, teatro independente, fotografia. O das artes plásticas traz grafites do americano Basquiat, o bode de latas de refrigerantes esculpido pelo paranaense Elvo Damo ou peças do paulista Arcangello Ianelli - e será a única galeria de algumas cidadezinhas, animada pela big band de Paranavaí.

Agencia Estado,

25 de julho de 2000 | 10h38

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