Onde tocam os selvagens

Rock, pop, canção... As pessoas precisam de mais do que isso. E os transgressores, para Pierre Boulez, são aqueles que rompem com o passado para criar uma música nova

Entrevista com

Jesús Ruiz Mantilla, El País, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2010 | 00h00

Quase ninguém discutiria hoje o gênio do maestro francês Pierre Boulez. Pode-se gostar ou não de sua música, mas se considerarmos a genialidade como a qualidade dos escolhidos para inventar caminhos antes inexistentes, ele a possui.

Gênio e figura. E mestre agora, aos 85 anos. Personalidade tão criativa quanto destruidora de convenções anteriores, implacável e soberba muitas vezes nos anos da sua juventude. Ele quis superar o dodecafonismo da Escola de Viena, as propostas de vanguarda de Schoenberg, Berg ou Webern. Mas tampouco comungou com Stravinski, nem no fim com seu mestre Messiaen, que tratou com menosprezo, ou com colegas de geração como John Cage. Opôs-se a eles e combateu suas ideias de forma incansável, desagradável em certas ocasiões, sem concessões para as fraquezas. Inventou o serialismo e posteriormente o destruiu. Procurou novos sons e introduziu a eletrônica na música contemporânea.

Deu impulso ao Ensemble Intercontemporain e à Ircam (Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique) em Paris. Ele continua regendo e compondo. Não se arrepende de nada: nem dos excessos, nem dos defeitos, dos passos em falso. Ri muito e desafia os jovens a matar o pai. Trabalha e atende às homenagens.

Será uma das figuras centrais do Festival de Lucerna (Suíça) este ano, onde regerá obras de Mahler (a Sexta Sinfonia), Webern e Stravinski. O DVD Pierre Boulez and the Lucerne Festival Academy (EuroArts) foi lançado em abril, com boas chances de chegar ao Brasil pela Music Broker.

Não cansa reger aos 85 anos?

Ao contrário, a gente faz exercício. É verdade que, quando ensaio duas vezes, não ensaiarei uma terceira; é preciso ter muita consciência de onde é possível chegar. Os gestos são importantes, é preciso economizar esforços. Também não fico em pé seis horas, sento. Mas quando estou em forma, me sinto bem, a vida me alegra, não me canso. Tenho 85 anos, nem todo mundo chega até aqui.

O senhor era uma personalidade temperamental nos anos 50.

Era e continuo sendo, suponho.

Mas quando jovem, era considerado um selvagem.

A situação não é mais a mesma. Agora se aceitam coisas que há muito tempo não eram aceitas, principalmente na França. Penso como antes, mas não tenho a mesma veemência.

Essa veemência o levou a opor-se a Stravinski, John Cage...

Sim, sim, mas não com eles pessoalmente, a coisa era com suas concepções da música. Polemizo com as ideias.

Também com Schoenberg, que rompera várias barreiras antes dos senhores.

Sim, o combati e mantenho a mesma opinião. Porque ele se empenhou em demonstrar a validade do seu sistema dodecafônico com moldes clássicos. Não fazia sentido. Não é possível comprovar se algo novo funciona com velhos pressupostos.

O senhor queria a destruição de tudo o que vinha antes...

Devia haver ruptura. Fazer com que tudo dependesse mais do inesperado, uma ideia que organizasse o universo de uma obra, um motivo. O sistema de Schoenberg não permitia essa liberdade, enclausurava-o.

Sim, porém daí a propugnar uma destruição violenta... Era essa a linguagem propícia para o século 20?

A violência era muito produtiva. Eu tinha 20 anos quando acabou a Segunda Guerra Mundial. Havíamos sido testemunhas de excessiva destruição. Nossa obrigação era destruir para construir de novo.

Valeu a pena destruir tudo isso? Os senhores puseram a harmonia de pernas para o ar e agora muitos a reconstroem.

Sim. A harmonia baseia-se em intervalos, é preciso organizar um sistema no qual seja possível polarizar esses intervalos e mesclá-los. O sistema tonal organizava categorias que ainda são relevantes, mas agora, com os novos métodos criados após o sistema tonal, se pode ampliar a percepção do som.

Quando fala de percepção, está se referindo ao público?

Ou à gente mesmo. Não trabalhamos apenas para o público. Primeiro somos nós que devemos ouvir o que fazemos.

Em que medida o público aceitou suas propostas tão radicais?

Há sempre uma adaptação. O que o público aceita agora não era aceito 50 atrás. Há peças que hoje são sucesso quando tocadas e na época não eram entendidas.

Em que contribuiu a música da América no século 20?

Eles não tinham a nossa tradição, nem nossa educação. Por exemplo, Cage era amador desse ponto de vista, não conhecia profundamente a história da música, não sabia escrever. Mas tinha grandes ideias, grandes ideias que não sabia como transpor para a linguagem, para o papel. Com sua proposta do piano separado, não calculou bem o que poderia ser legítimo e o que não. Gostava de Cage por isso, mas não quando aflorava essa sua faceta de aficionado.

E com Stravinski, qual foi o problema?

O neoclassicismo. Ele era grande narrador. Contava uma história de maneira maravilhosa. O Pássaro de Fogo? Ele o conta estupendamente. Petrushka? A mesma coisa. Mas logo vêm todas essas obras sobre os gregos, Édipo Rei, e assim por diante. Ele aplica metodologias clássicas baseadas nos autores barrocos, mas isso não era Stravinski, era um estilo maneirista.

O senhor também se interessa por pop, rock, Frank Zappa?

Pop não, somente por gente como Frank Zappa, que se afastava das convenções deste mundo. Porque estas convenções são duras, muito duras.

Os selvagens estão em outra parte?

É claro, o que acho interessante no rock ou no pop é a determinação dos jovens em se expressar. Mas a linguagem rítmica é primitiva, muito mais do que na época de Stravinski. Falta-lhes uma formação que os leve a inventar algo mais excitante do que um, dois, três, quatro.

A canção, como fórmula musical, acabou se impondo. Será a forma deste tempo?

Não acredito, é simples demais. O verdadeiro desafio está em inventar novas formas para cada peça criada, superar as que existem. Há um desafio também para quem escuta, ao defrontar-se com esta nova forma pela primeira vez. Na segunda, na terceira vez, a apreciará mais. É sempre preciso orientar as pessoas, é claro.

Onde está o prazer na música radical?

O prazer existe.

Mas não o buscavam.

Bom, não o buscávamos. Não estava nos meus parâmetros. Outra coisa é gostarmos ou não do resultado. Eu gosto da explosão da violência, da desordem, da dureza, embora não seja possível qualificá-la, não há palavras para descrevê-la. Se entram as palavras, ilustramos a música, e isso não me interessa.

Mas havia sexo em sua música, dizia Michel Foucault.

Não me parece.

Como inspiração?

Veja bem, tentar relacionar a obra a aspectos pessoais não leva a lugar nenhum interessante, é preciso tentar transcender isto. É o mais importante, o que diferencia a vida da obra.

Sente-se rechaçado pelas novas gerações?

Sinceramente, não.

Não como quando opinava sobre seus antecessores?

Eles podem ter a sua opinião, devem, do contrário nunca serão eles mesmos. Aceito qualquer uma. Sua obrigação é matar o pai.

E fizeram isso?

Bom, é preciso matá-lo, mas antes pegar o que tem no bolso. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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