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Leandro Karnal
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Onde estarão os leitores?

Os livros são parte da uma parede extraordinária, mas o amor pela vida é o alicerce

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2021 | 03h00

Ao falar dos leitores, Alberto Manguel disse que são, basicamente, de três tipos. Pode ser um devorador de livros em si (o leitor como traça), pode estar refugiado no saber livresco (a torre) e pode usar os textos como forma de flanar pelo mundo (o viajante). São metáforas bem explicadas pelo pensador argentino-canadense.

A importância da leitura sempre parece uma defesa inútil. Quem a ama não necessita de outrem a catequizá-lo. Quem detesta ouve com enfado a pregação dos convertidos. Mas, afinal, o que seria ou o que buscaria um leitor? O que falta?

Existe o leitor de novidades. Ávido por lançamentos, percorre listas dos mais vendidos na imprensa. Em uma livraria, corre aos mostruários redondos que, em geral próximos à porta, mostram o que acabou de chegar. Seu interesse é no frescor da nova obra, na vanguarda, em estar atualizado. A dor maior do primeiro tipo é alguém falar de um novo autor ou da obra mais recente de uma escritora consagrada e ele, garimpador de pepitas recém-impressas, ainda não conhecer.

O leitor atualizado não age mal. O preço a pagar pelo afã de consumir o novo pelo novo é uma dieta que entremeia alhos com bugalhos. O comportamento existe em todos os campos, de enólogos a músicos. Todos descobrem, em algum momento, que leram, beberam ou ouviram uma porcaria nova... porque era nova! O mérito está na ousadia de pioneiro. Um dia, afinal, Clarice Lispector também lançou sua primeira obra e dependeu da boa vontade de um tipo assim.

O segundo tipo ideal é o “leitor de obras consagradas”. Temendo perder tempo, refugia-se no consolidado. Parece suficiente: se eu decidir apenas ler as obras-primas de Machado, de Shakespeare, Dante, Virginia Woolf ou Adélia Prado, já tenho um projeto de vida pleno. Tal leitor pode ser assim de nascença ou, como ouvi de Antônio Houaiss, um hábito da etapa madura. O dicionarista e diplomata, aos 80 anos, temia perder tempo com coisas ruins. Ele afirmava que, entre arriscar uma jovem promessa da literatura e reler Padre Vieira, voltava-se à segunda hipótese. Talvez valha para os leitores o mesmo conselho que os investidores recebem: se for jovem e tiver tempo de vida à frente, seja mais ousado nos riscos.

O primeiro tipo gosta de pesca esportiva em alto-mar. Quem sabe, entre sardinhas comuns, encontre um gigantesco e raro marlim-azul? O segundo prefere “pesque e pague”, com peixes confiáveis. Um se arrisca muito, outro é marcado pela prudência do talento lavrado.

Além dos dois modelos quanto à ousadia, existem outros tipos no campo do prazer. Há quem seja mais próximo da leitura como algo muito bom, que desperte deleite imediato. Abandonam obras pela metade ou logo à partida, se não cumprirem a meta hedonista. No canto oposto, os que amam livros complexos, árduos, de narrativas lentas e que não se entregam logo. O primeiro encontra o prazer do beija-flor bailando diante de flores muito variadas em busca do néctar doce imediato. O segundo é águia em ninho escarpado que passa horas acompanhando, com seu olhar agudo, a presa que serpenteia no vale. Ambos pagam preços pelos seus hábitos de voo.

Torre, traça, viajante, faminto de novidades, prudente, o buscador de prazeres rápidos ou o adepto de prazeres mais árduos: todos os modelos podem estar misturados em você e em mim. Quando abrimos um livro em papel ou na tela, temos a nossa disposição descobertas, torres e traças. Com o tempo, vemos que os livros lidos nos leram e alteraram nossa composição molecular. Formamos uma complexa simbiose que mudou a ambos. O livro voltou à estante com a lombada marcada, alguma página assinalada a lápis, uma página com uma orelha dobrada. Eu, para sempre trilhado pelo que li.

Brilha o autor ressuscitado, falando de novo entre os vivos, exercendo a imortalidade do talento. Eu, leitor, desperto como o observador de estrelas de Olavo Bilac, que chega ao alvorecer tomado de emoção das conversas que manteve durante a noite.

Qual o conselho a quem não gosta de ler? Nada que eu possa dizer serve se não houver a ousadia transformadora da leitura. E se um inimigo da leitura me perguntasse o que eu vejo nos livros? Eu adaptaria o soneto do poeta parnasiano: “Amai para entendê-los! Pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender livros”. Será a falta de leitura que nos domina? Carecemos de amor, entusiasmo, vida, fluxo e ânsia de futuro, esperança e curiosidade. Os livros e a leitura decorrem dos sentimentos. Não é falta de livros, é ausência de amor pela vida no sentido amplo e vasto do termo. Não foram os livros que me ensinaram a amar. Foi o amor que me levou aos livros, à música, à arte e aos amigos. Os livros são parte da uma parede extraordinária, mas o amor pela vida é o alicerce. Hipótese: o sumiço de muitos bons leitores seja muito mais grave como sintoma social do que imaginamos. Faltam leitores e falta vida. Sobra apatia, tédio e sucessão de “likes” diante do imenso “dislike” da vida real que pulsa. Ainda é preciso ter esperança...

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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