Onde as vozes se encontram

Autor britânico Mike Bartlett traça contornos de um novo teatro político

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES , O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2011 | 03h07

Mike Bartlett não acha feio fazer sucesso. Para esse dramaturgo britânico, não faz sentido receber loas da críticas sem ter a mesma recepção do público. É nessa toada que ele conta que só escreve textos que possam alcançar a todos. Ou a quase todos. "Não gostaria que meus amigos, as pessoas que eu amo, se sentissem excluídas daquilo que faço." Também é assim que ele desfaz das usuais divisões entre alta e baixa cultura. "A mesma pessoa que lê Dostoievski pode assistir a Ídolos. Isso só nos torna mais interessantes. Não temos que escolher uma coisa ou a outra."

Aos 30 anos, Bartlett é uma das vozes mais influentes do novo teatro britânico. Coleciona prêmios, escreve para teatros como o Royal Court, percorre o mundo falando sobre seu trabalho para jovens escritores emergentes. De passagem por São Paulo, ele participou de um ciclo de dramaturgia promovido pelo British Council e conversou com o Estado. Discorreu sobre a cena britânica, a função da arte em tempos de crise, a recepção de seus trabalhos.

É a primeira vez que um texto do autor merece montagem no País: o diretor Zé Henrique de Paula assina a versão brasileira de O Contrato. Concebida originalmente para o rádio, a comédia é um compêndio de cenas curtas nas quais uma funcionária vê sua vida pessoal ser gradativamente invadida pelos ditames da empresa em que trabalha.

Quem procura por inovações formais talvez não se surpreenda com a maneira como Bartlett conduz essa fábula. Mas é difícil não reconhecer seu mérito em trazer à cena questões cruciais da contemporaneidade. Quais são os novos limites da vida privada? Quão tênue é a fronteira que separa o indivíduo do universo em que está imerso?

"Se o teatro não for o lugar para discutir os temas da humanidade, da política, da economia, para pensarmos como vivemos e quem somos, eu não sei para que ele serve", considera o dramaturgo. "Para que seria? Para a beleza? Existem muitas outras coisas bonitas. A poesia é muito mais bonita. O teatro é onde as pessoas podem, juntas, se engajar em alguma coisa."

O tom que marca O Contrato também transparece nas criações posteriores do artista. E merece contornos mais intrincados. Em 2010, ele mostrou Earthquakes in London, um épico moderninho sobre as mudanças climáticas, os casamentos fracassados, os impasses das futuras gerações. A peça marcou sua estreia no National Theatre. Foi encenada na ala destinada a experimentações. E, mesmo sem ter tido a acolhida esperada, abriria caminho para 13. Mais um épico. Desta vez saudado pelo Guardian como uma "peça poderosa e perturbadora".

Concebido sob encomenda para o NT, o novo espetáculo ganhou o palco mais prestigioso da Inglaterra: a sala Lawrence Olivier. "Mas não importa se faço uma peça para 100 ou para 2.000 pessoas. Isso não faz diferença", diz ele, sem parecer dar muita importância ao que poderia ser considerado o ápice na trajetória de um dramaturgo em seu país. "Hoje, falamos ao telefone enquanto estamos em uma reunião. Assistimos à televisão enquanto estamos na internet. Onde mais você pode fazer unicamente uma coisa?", ele pergunta. "Apenas no teatro. E as pessoas vão valorizar isso cada vez mais e mais."

Em um tempo de formas massificadas de arte, talvez sua visão sobre um novo teatro político soe romântica. Ou otimista demais. Não se pode negar, porém, que ele tenha bons argumentos a seu favor. "Há sempre política, economia e questões sociais no que escrevo. Porque não fazer isso seria se dedicar a uma arte para privilegiados. As únicas pessoas que não se preocupam com economia, política e a sociedade são as que têm dinheiro suficiente para não ter que pensar nisso."

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