'Onde Andará Dulce Veiga', filme de Guilherme de A. Prado

Cineasta, que ocupa nicho muito particular na produção brasileira, adapta obra de Caio Fernando Abreu

Luiz Carlos Merten, do Estadão,

07 Setembro 2025 | 16h24

Se não chegam a constituir um gênero específico do cinema brasileiro, os filmes de Guilherme de Almeida Prado ocupam, de qualquer maneira, um nicho muito particular do cinema nacional. O público classifica os filmes por gêneros - ação, policial, drama, comédia, ficção científica, western, musical. Os de Guilherme, como os de Júlio Bressane, são de difícil classificação. Bressane é erudito; Guilherme é mais pop, mas é um autor que privilegia, acima de tudo, a sofisticação da linguagem. O próprio Guilherme, ao apresentar Onde Andará Dulce Veiga? na Première Brasil, domingo à noite, comentou que ainda não sabia direito o filme que fez. Maitê Proença, no palco com o restante do elenco, resolveu ajudá-lo. Disse que é sempre difícil saber o que se está fazendo num filme de Guilherme, mas este ela achou facinho. Um filme fácil de Guilherme de Almeida Prado? O diretor pegou carona na tradicional piada que associa as loiras à burrice e lascou - Vejam como é fácil; até a Maitê entendeu. Desce o pano rápido, como diria Millôr Fernandes no seu teatrinho do cotidiano, na antiga revista O Cruzeiro. Onde Andará Dulce Veiga? começou a surgir em 1987, quando Guilherme, pela primeira vez, manifestou sua intenção de trabalhar na adaptação do livro homônimo. Só em 2001, ele retomou o projeto para valer. Se não foram 20 anos, foram, mesmo assim, 6. Os filmes de Guilherme de Almeida Prado são sofisticados, elegantes, cheios de referências. São muito trabalhados, é por isso que demoram tanto? Não são tão elaborados assim, diz o diretor, num encontro informal com o repórter, durante o café da manhã. E o problema é sempre o dinheiro. Onde Andará Dulce Veiga? baseia-se no livro de Caio Fernando Abreu sobre um aspirante a escritor, transformado em repórter, que investiga o desaparecimento de uma famosa cantora dos anos 60. Dulce Veiga era uma estrela. Um dia, em pleno set de filmagem, ela deveria entrar por uma porta do cenário, mas a porta permaneceu fechada. Dulce sumiu. Virou mito e, agora, o repórter descobre que a vocalista de uma nova banda, Vaginas Dentadas, é sua filha. Por meio dela, ele ingressa num mundo de criação, mas também de vício e perversão, com homossexualismo masculino e feminino drogas, etc. O herói apaixona-se pela garota, mas ela, além de lésbica, tenta convencê-lo de que é gay enrustido. E, a todas estas, Dulce pode estar viva - na Amazônia. Nada é o que parece ser. Guilherme de Almeida gosta de trabalhar sobre aparências (e referências). O repórter vive repetindo o gesto de passar o polegar sobre os lábios, como o Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) de Acossado, de Jean-Luc Godard. Mas as referências culturais são muito mais amplas - música, literatura, cinema, Guilherme de Almeida Prado funde tudo. Existem, como em A Dama do Cine Shangai, ecos de filme noir e o desfecho assume a forma de um musical, com a dupla de amantes fazendo uma citação a Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Démy.   Após o banho de realidade de Tropa de Elite, de José Padilha, na noite de inauguração, e A Casa de Alice, de Chico Teixeira, no sábado, a Première Brasil abriu-se para o neon-realismo - isto é, para o onirismo, a investigação da linguagem e o pós-tudo. Não é para todos os gostos. Guilherme de Almeida Prado ocupa um nicho do cinema brasileiro, vale repetir. Nunca, como aqui, o autor liberou tanto o chamado imaginário gay, que passa pela mistificação de mulheres deslumbrantes (Maitê, Maitê, Maitê e também Carolina Dickman e Christiane Torloni). O que ele faz é plasticamente bonito, mas no fim havia gente reclamando, não sem certa razão, da falta de densidade de Dulce Veiga. Pode ser assim para os outros, mas Guilherme diz que filma por prazer - e necessidade visceral. A pesquisa de linguagem também deu a tônica de Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro, primeiro filme brasileiro realizado num único plano-seqüência. A história trata de personagens que vivem situações-limite em Porto Alegre, do amanhecer ao entardecer, o que faz com que, apesar do plano único, o tempo tenha sido condensado por meio de elipses. São figuras às voltas com sexo, fome, sobrevivência, variadas formas de violência. Após intensa preparação, Spolidoro filmou seis takes. Escolheu o segundo. O filme intriga, mais do que satisfaz. Entre os bons programas de ontem, fora os nacionais, pode-se citar Mundo Livre, um Ken Loach mais documentário, como no começo de sua carreira, e Silenciosa Luz, em que o mexicano Carlos Reygadas refaz, à sua maneira, o clássico A Palavra, de Carl Theodor Dreyer. O repórter viajou a convite da organização do festival

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