Ondaatje escreve por curiosidade

O escritor Michael Ondaatje, autor dos romances O Paciente Inglês, Bandeiras Pálidas e Buddy Bolden´s Blues, que vive no Canadá, disse na terça, em São Paulo, para um público de pouco mais de 50 pessoas, que começou a escrever como leitor - "Pelo prazer de ler, de escapar, de descobrir."Ondaatje foi primeiro poeta, já aos 19 anos. E foi a poesia que o levou à prosa. Quando escreveu a série de poemas que integram seu livro The Collected Works of Billy the Kid, sentiu necessidade de incluir trechos em prosa em sua obra. Depois, influenciado pelo cinema, pelo teatro, pela música e pela fotografia - mais por essas outras artes que pela própria literatura -, continuou e aprofundou seu trabalho como prosador."Mas o principal motivo por que escrevo é a curiosidade", afirmou. Só após muita insistência, ele aceitou citar autores que admira: Stendhal, Don DeLillo, Italo Calvino, Julio Cortázar - este último, aliás, lembrado, por Milton Hatoum (autor de Dois Irmãos, que apresentou o canadense no encontro) pela afinidade temática de O Perseguidor com Buddy Bolden´s Blues.Segundo o autor (que vem pela primeira vez ao Brasil), escrever é, para ele, uma espécie de movimento arqueológico, em que, a partir de uma imagem, se inicia uma busca pelas origens dos personagens - o que lembra a trajetória de Anil, protagonista de Bandeiras Pálidas, uma antropóloga forense que pesquisa violações aos direitos humanos no Sri Lanka analisando ossadas.No caso do Paciente Inglês - certamente o livro mais conhecido pelo público presente ao evento no Sesc Vila Mariana, em que autografou seus romances mais recentemente publicados no Brasil -, a imagem que deu origem ao livro foi a de um paciente conversando com uma enfermeira. A partir disso, Ondaatje imaginou o momento histórico em que essa história poderia se desenvolver - o fim da 2.ª Guerra Mundial - e começou a pesquisa que deu no romance.Ondaatje classificou-se como escritor nômade, ou seja, autor que não se prende a um lugar específico. Explica-se: suas obras se passam em diferentes lugares, embora Bandeiras Pálidas marque uma volta do autor ao seu país natal, o Sri Lanka. "Meus livros se passam em locais muito diferentes: já escrevi sobre o Oeste americano, sobre New Orleans, a Itália, o Canadá, a Austrália." Segundo ele, não esse aspecto que faz um grande escritor - "pois há muitos escritores nômades ruins". Para Ondaatje, a produção literária hoje está dispersada pelo mundo. Haveria, assim, melhores escritores e poetas de língua inglesa na Austrália e no Caribe que nos Estados Unidos e na Inglaterra. Ainda sobre literatura universal, falou sobre o realismo mágico latino-americano. "Por que mágico? Isso é realismo puro. O Sri Lanka é Macondo", lembrou os Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.Durante toda a palestra, o escritor referiu-se a Bandeiras Pálidas utilizando o título português - que, afirmou, é melhor que o original, Anil´s Ghosts (Os Fantasmas de Anil). Respondendo a uma das questões do público, ele explicou que não quis fazer, sobre a guerra civil do Sri Lanka dos anos 80, um livro político "com pê maiúsculo". "Procurei criar personagens que têm de fazer grandes escolhas morais numa situação como aquela; não sei como o livro é visto pelos governantes do Sri Lanka, primeiro, porque não acredito que o governo esteja preocupado com literatura, segundo, porque o governo de agora não é o mesmo da época do romance."Sobre Buddy Bolden´s Blues, Ondaatje disse que não é capaz de definir, exatamente, quanto há de ficção e quanto há de verdade em sua obra, pois a escolha de fatos e imagens históricos num romance já é também uma eleição ficcional. Mas, se o jazz é uma influência, o que Ondaatje gosta quando o assunto é música brasileira? "Não sei dizer, comprei 25 CDs hoje, talvez responda na próxima vez."

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