Demian Jacob/Melissa
Demian Jacob/Melissa

Onda verde: marcas levantam bandeira sustentável e emprestam uma causa nobre ao marketing

Marcas privilegiam ações que elegem materiais reciclados ou orgânicos

Isabela Serafim, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2017 | 04h00

A indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo – perde apenas para o setor petroleiro. Para tentar virar esse jogo, grandes marcas estrangeiras e nacionais vêm levantando a bandeira da sustentabilidade e adotando práticas sustentáveis efetivas, que vão além do marketing. A americana Ralph Lauren, por exemplo, anunciou que vai rastrear a madeira usada em suas confecções e evitar a compra de matéria-prima proveniente de regiões onde há destruição de florestas e violação de direitos humanos. Já a Adidas, gigante de roupas e acessórios esportivos, fez barulho ao lançar um tênis feito de plástico retirado do oceano (uma peça de colecionador, vendida por US$ 220) e uma linha de roupas feita com fio biodegradável. 

 No Brasil, quem sai na frente é a Melissa, da Grendene, que passou a usar em seus produtos o selo ‘100% Real Plastic’, garantindo que não lança mão de qualquer matéria-prima de origem animal. “Hoje, o cliente sabe a importância de escolher uma marca que esteja de acordo com as premissas de preocupação social e ambiental”, afirma Chiara Gadaleta, consultora de moda especialista no assunto e fundadora da plataforma Ecoera. “Os consumidores estão cada vez mais exigentes e usam as mídias sociais para expor as suas inquietações e necessidades.”

Nessa onda verde online, merece destaque o Fashion Revolution, movimento global que ocorre entre os dias 24 e 30 de abril. Presente em 92 países, o evento surgiu com o objetivo de conscientizar as pessoas sobre os impactos sociais e ambientais da indústria da moda, exigir transparência e ética nos negócios e celebrar todos os envolvidos na produção consciente de roupas. Dentro do conceito, a pergunta ‘Quem fez minhas roupas?’ promete embalar discussões e criar novos questionamentos em várias cidades do País. 

Bruno Almeida, gerente de relações-públicas da Adidas, acredita que a sustentabilidade precisa ir além do produto final. “A consciência é também uma premissa interna da Adidas. Reciclamos lixo dentro da empresa, deixamos o ar condicionado ligado apenas algumas horas por dia. As lojas foram renovadas com um novo sistema de iluminação e as sacolas plásticas não fazem mais parte do nosso cotidiano”, enumera.

Mas há ainda o produto final, claro. Na Adidas, o tênis sensação é o ‘Ultra Boost Uncaged Parley’, feito com plástico retirado do oceano (95%) e poliéster reciclado (5%). Sete mil pares foram produzidos em parceria com a instituição Parley for the Oceans e esgotados em pouquíssimo tempo. As camisas de futebol dos times Bayern de Munique e Real Madrid também ganharam versões produzidas com resíduos retirados das áreas costeiras das Maldivas. 

Com investimento constante em pesquisas, a Adidas conseguiu também elaborar o primeiro par feito com Biosteel, uma fibra de alta performance completamente natural e biodegradável. Ao mergulhar o tênis na água com uma concentração suficientemente alta de uma enzima de digestão, a empresa constatou que o fio se decompõe em 36 horas (isso não se aplica à chuva ou condições naturais de uso graças à enzima).

No Brasil, o selo ‘100% Real Plastic’ da Melissa inaugura uma nova era de produtos elaborados com matéria-prima vegana. “Tínhamos quatro elementos químicos usados na fabricação do PVC que eram de origem animal e foram substituídos pelos de origem vegetal”, explica Raquel Metz Scherer, gerente de marca e produto da grife. “Até maio deste ano todos os nossos produtos devem ser 100% veganos.” Provando não se tratar apenas de uma ação de marketing, a Melissa ainda investe no reúso de água, que resultou na redução de 54% no consumo por par produzido. “Com a estruturação das áreas de armazenamento de resíduos, conscientização e sensibilização dos funcionários, reduzimos em 65% a quantidade de lixo por par entre 2011 e 2015”, diz Raquel. “Isso tem um resultado positivo nas regiões onde as operações estão instaladas.” 

Com a mesma premissa, de influenciar positivamente áreas da cadeia produtiva, a americana Ralph Lauren expôs no início deste ano que vai divulgar as novas regras de fornecimento como parte de uma iniciativa para garantir que os seus insumos não endossem abusos aos direitos humanos e tenham ideais sustentáveis. De acordo com a consultora Chiara Gadaleta, a consciência ambiental será decisiva daqui para frente. “As marcas menores têm vantagens quando falamos de agilidade e investimento. Grandes grifes precisam de planejamento para mudar a produção e diminuir o impacto negativo no meio ambiente e na sociedade. Por outro lado, têm maior poder de transformação por conseguirem alcançar mais pessoas.”

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