Onda do Afrobeat inspira novos grupos

Lá se vão mais de 13 anos desde a morte de Fela Kuti, criador do afrobeat, e sua obra só cresce em diversos cantos do mundo. No Brasil, nunca se viu tantos grupos seguindo à risca a cartilha do mestre. Se desde Chico Science com a Nação Zumbi os brasileiros rondam o estilo marcado pela bateria sincopada, o baixo hipnótico e melodias fortes de metais, hoje há no País nomes que partem explicitamente do ritmo.

Marcos Diego Nogueira, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

O combo Bixiga 70, que se apresenta amanhã no Dia Internacional do Grafite, é um dos bons exemplos do movimento. Os dez músicos do grupo uniram-se em agosto para tocar na versão paulistana do Fela"s Day, a Festa Fela, celebração anual que ocorre em diversos cantos do planeta, no aniversário do criador do afrobeat. No repertório, releitura de clássicos do gênero e temas próprios. "Não queremos ficar presos ao que já foi feito, queremos fazer a nossa versão desse ritmo que a gente admira", diz o tecladista Maurício Fleury. "Por isso nem colocamos o termo "orquestra" no nome, pois queremos fazer algo nosso."

História parecida têm os cariocas da Abayomy Afrobeat Orquestra. Autodenominados a primeira orquestra de afrobeat do País, comandados por Donatinho, filho do maestro João Donato, os 13 músicos se dividem entre sopros, baixo, guitarra, bateria e teclado para celebrar Fela Kuti. Seu primeiro show? A versão do Rio para o Fela"s Day. Os álbuns dos dois grupos são esperados para este ano, mas é possível ouvir uma prévia na internet, via MySpace.

Tributo. Foi em 2009 que o experiente Letieres Leite lançou seu primeiro disco à frente da Orkestra Rumpilezz. Na época o maestro, que já gravou com jazzistas pelo mundo, fez com os seus 20 músicos uma ode aos ritmos baianos. O resultado foi um dos grandes discos e shows de afrobeat do Brasil. "Gosto dessa estética do mantra evocada pelo baixo e a percussão do estilo africano. Utilizei em alguns momentos essas repetições no grave, mas considero que tenha feito algo mais largo, abrangendo o jazz, erudito e principalmente o afro-baiano, minha maior fonte de inspiração", conta ele, que reunia os amigos no bairro do Pituassu para ouvir um LP de Kuti. "Reza a lenda que foi Gilberto Gil quem trouxe esse disco para nós. À época ouvíamos muito Earth, Wind and Fire e coisas do gênero, mas quando chegou o Fela ninguém mais queria mudar", lembra Letieres, que planeja novo grupo mais fundado no ritmo nigeriano.

A onda do afrobeat para novas experimentações tem rendido frutos também na Paraíba. O quinteto Burro Morto vem aparecendo com destaque em festivais pelo Brasil (como o Jambolada 2010), misturando o ritmo com rock progressivo e psicodélico, registrado no recente Baptista Virou Máquina, uma espécie de ópera instrumental. "A batida e o ritmo do afrobeat se encaixam com perfeição a outros elementos presentes na nossa sonoridade", detalha o guitarrista Léo Marinho.

A internet como fonte de pesquisa e o relançamento da discografia de Fela Kuti em CD são fatores para o aumento de admiradores do estilo. E não só Kuti e sua família são amados. Músicos como Orlando Julius e o baterista Tony Allen são tidos como mestres supremos. Mas esse fôlego renovado também tem a ver com bandas novas surgidas na América do Norte. Antibalas Afrobeat Orquestra, Nomo e Budos Band revisitam o gênero sem perder a originalidade de quem preza o estilo.

Quatro grupos em cantos diferentes do Brasil dão a sensação de que uma cena está em formação. O resultado disso só veremos - e ouviremos - ao longo do tempo.

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