JB Neto/AE
JB Neto/AE

Olivier Toni, 85 anos de paixão

Maestro celebra aniversário hoje regendo a Orquestra de Câmara da USP

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2011 | 00h00

"Se alguém tocar nesta plantinha, vai ter que se ver comigo." A frase do maestro e compositor Olivier Toni, fundador do Departamento de Música da USP, meteu medo mesmo nos circunstantes - e deu todas as condições para a ameixeira. Plantada por ele em 1994, quando o departamento se mudou para a nova sede na Cidade Universitária, a árvore cresceu e agora, imponente, constitui um dos signos mais visíveis da força da ação desse músico extraordinário que fundou duas escolas - o próprio departamento e Escola Municipal de Música - e quatro orquestras: a Sinfônica Jovem Municipal de São Paulo (rebatizada depois como Experimental de Repertório), a Orquestra de Câmara de São Paulo e as Orquestras Sinfônica e de Câmara da USP.

Ele completa hoje 85 anos. Comemora no pódio, regendo um concerto de uma de suas "filhas", a Orquestra de Câmara da USP. E num local emblemático, o Teatro Carlos Zara, no CEU Butantã. Afinal, ele esteve rodeado de músicos jovens nas duas últimas semanas, quando ensaiou o programa de hoje: a virtuosística Tzigane de Ravel, a transcrição de Rudolf Barshai para cordas do quarteto n.º 8 de Shostakovich e uma composição sua, Isso e Nada Mais. Músicos jovens são os que mais aprecia, porque "têm prazer em fazer música".

Cheio de energia, Toni jamais baixa a guarda, está sempre pronto para o combate. "Precisamos recuperar o prazer de fazer música. Você vê esses meninos, são os Heifetz da Vila Alpina, os Rostropovich de Vila Nhocuné. Por que eles insistem em estudar música num país onde a tônica é a violência, a injustiça social e outras mazelas? Pois é por isso mesmo que os adoro. Eles insistem na música, e só o prazer da prática musical nos resgata em nossa humanidade." A frase de Toni não foi exatamente essa. Mas resume sua filosofia de vida - extraída de conversas, nos últimos tempos, em cafés periódicos regados a reflexões que outros julgariam inúteis, porque surfamos pela música meio sem rumo, ao sabor da livre associação de ideias.

Reger para o público do CEU-Butantã constitui, tenho certeza, o palco mais importante para Toni a essa altura da vida. Depois de amanhã ele rege o mesmo programa no auditório do Masp, outro local simbólico de aventuras musicais radicais desse músico múltiplo, que de um lado impulsionou as pesquisas sobre a música do Brasil colonial, com seu querido Festival de Prados e também dando espaço para Régis Duprat; e, de outro, institucionalizou a vanguarda erudita contemporânea nos anos 60/70 (Gilberto Mendes, Willy Corrêa de Oliveira, Mário Ficarelli).

É emocionante assisti-lo em ensaio na USP. Toni explica aos músicos o sentido do quarteto de Shostakovich, composto em tributo às vítimas do fascismo e do nazismo, em plena Segunda Guerra. E interrompe a execução logo nos primeiros compassos. "Não façam vibrato, por favor; vibrato é sinônimo de alegria, e vocês não podem aplaudir o fascismo. Shostakovich aqui lamenta as vítimas do fascismo." De igual modo, repreende, dá dicas e também afaga o jovem e ótimo violinista Renan Gonçalves no ensaio da Tzigane de Ravel, peça difícil, e não só para o solista mas também para a orquestra. Tudo na medida exata para que eles aprendam e mantenham a motivação.

Composição. Isso e Nada Mais, curta composição para três solistas - Camilo Calandreli, tenor, Neymar Dias, contrabaixo, e Maurício Marra, trompete - e orquestra sintetiza suas preocupações criativas atuais. "Precisamos ultrapassar o sistema das 12 notas, o temperamento", diz. "A música eletrônica ainda pensa em termos instrumentais convencionais. Por isso, parti para a composição com 6 notas, de caráter modal, mas com pitadas emprestadas da técnica chinesa de pintura (Toni é também pintor), ou seja, busco mostrar que o vazio é vivo. E, como toda obra precisa ter um conflito, coloco um trompete oculto que interfere tocando o tema da abertura Leonora de Beethoven e depois o toque de recolher tão significativo que Michele ouve antes de matar Luigi no Tabarro de Puccini." Toni pós-moderno? Pode até ser. Nada lhe é proibido. Aliás, se fosse preciso aplicar um mote a Toni, seria o de Caetano, é proibido proibir.

Ele é um dos raros músicos contemporâneos a ultrapassar as naturais contradições estilísticas que quase sempre separam criadores e músicos em diversas tribos distintas e conflitantes entre si. Estudou com Koellreutter, introdutor no Brasil da música serial de Arnold Schoenberg; mas também com Camargo Guarnieri, líder do movimento nacionalista no País. Saudabilíssima dualidade que lhe permite, neste momento, dedicar-se com paixão e talento a dois de seus amores mais íntimos: a próxima edição do Festival de Prados, em julho; e a composição, algo que lamenta não ter praticado mais e agora ocupa o centro de suas atenções.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.