Oliver Stone e seu road movie político

Em Ao Sul da Fronteira, diretor visita países como Venezuela, Equador, Bolívia e Brasil como quem deseja desfazer ideias preconceituosas

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2010 | 00h00

          

             

Em campo. Evo Morales, presidente da Bolívia, bate uma bolinha durante encontro com Oliver Stone: simpatia pela esquerda

 

 

 

 

 

Sem se prestar atenção ao título não se entende o filme. Ao Sul da Fronteira é um documentário dirigido por um norte-americano descrente de que o mundo civilizado começa e acaba em seu país. Há vida ao Sul e é nele que Oliver Stone vai encontrar o que, em sua visão, seria uma série notável de governos que se recusam a seguir a cartilha de Washington - a Venezuela de Chávez, a Argentina dos Kirchner, o Brasil de Lula, o Paraguai de Fernando Lugo, o Equador de Rafael Correa e, de maneira um tanto lateral, a Cuba de Raúl Castro. Governos de centro-esquerda, ou de esquerda. É neles que Stone encontra o sal da terra.

À sua maneira, Ao Sul da Fronteira é, também, um filme sobre a fabricação de estereótipos. As primeiras imagens são de uma apresentadora de TV de uma conhecida rede de televisão americana, dizendo, histericamente, que aqueles ditadores eram todos viciados em "cacau" (sic). Um dos seus colegas sugere que ela estaria confundindo cacau com cocaína. E ela responde que é tudo mais ou menos a mesma coisa. O processo de demonização toma um viés caricato. Mas, de qualquer forma, com mais ou menos grosseria, é típico de um tipo de mídia provocar reações emocionais ao invés de reflexão; reforçar preconceitos em lugar de discutir ideias. O mundo das comunicações, tornado histérico por seu casamento com o show biz, é esse primeiro alvo de Stone - e ficará em contraluz quando o diretor construir o seu próprio discurso ideológico.

Golpe. Pois esse road movie político adota esse tom. Não chega a ser um panfleto. Mas expressa um ponto de vista. Não se preocupa em matizar as cores. Em especial ao visitar o país do personagem principal, o presidente da Venezuela. O personagem é envolvente, fanfarrão, conta a sua vida, sua história. O resto vem sob a forma de imagens de arquivos. A tentativa de aplicar um golpe, a prisão, a eleição, a maneira como reage a um golpe contra ele. De certa forma, e mesmo sem querer, o filme é uma ilustração dos usos e costumes políticos de uma certa era da América Latina.

O périplo de Stone o vai levando a um país após o outro. Conversa com os presidentes e colhe algumas imagens (e palavras) interessantes. Vê Chávez cair de uma bicicleta, cuja estrutura não suporta seu peso. Bate uma bolinha em companhia de Evo Morales. Lula mostra-se super à vontade e fala de um mundo multilateral. Lugo parece um tanto tímido, mas lembra que quebrou uma longa hegemonia do partido conservador em seu país. Correa é incisivo. Quando lhe perguntam por que negou permissão à instalação de uma base americana no Equador, responde que fez uma contraproposta. Os americanos poderiam instalar sua base, desde que os equatorianos pudessem colocar a sua em Miami.

Cristina Kirchner fala em uma nova estrutura de mundo e responde à altura uma pergunta inoportuna de Stone. O diretor indaga quantos pares de sapato guarda no armário (alusão a Imelda Marcos?) e Cristina lhe responde que nunca se pergunta aos homens quantas calças têm em seus guarda-roupas. Raúl Castro garante que Cuba está preparada para mais 50 anos de socialismo.

Unilateral. As reações desses presidentes são significativas. Gostemos deles ou não, parecem dizer que a época das cabeças baixas terminou. Não estão dispostos a alinhamentos automáticos e procuram governar para as camadas mais pobres. O discurso às vezes pode parecer populista, mas é feito a contrapeso de outro discurso que se poderia chamar de dominante ou consensual. Ao Sul da Fronteira busca o contradiscurso. Para combater uma visão unilateral, que julga preconceituosa, propõe outra visão unilateral. É uma espécie de contrapeso ao preconceito. Importante, nesse sentido.

QUEM É

OLIVER STONE

CINEASTA

C.V.: Nascido em Nova York, em 1946, lutou na Guerra do Vietnã, experiência da qual tirou filmes como Platoon e Nascido a 4 de Julho, que lhe valeram dois Oscars de direção. Tem outros filmes polêmicos no currículo como JFK, no qual insinua que o assassinato

de John Kennedy em 1963 foi obra de um complô.

PARA ENTENDER

Oliver Stone passou pelo Brasil para divulgar seu filme e até se encontrou com a pré-candidata Dilma Rousseff. De seu périplo latino-americano constam outros países que figuram no documentário Ao Sul da Fronteira. Mais do que divulgação comercial, essas visitas têm um caráter político já que Stone, crítico contumaz da política externa dos EUA, simpatiza com os governos de esquerda da região. Não é seu primeiro trabalho nesse sentido. Já filmou uma polêmica entrevista com Fidel Castro chamada Comandante. Em Salvador - Martírio de um Povo, aproveitou a deixa para criticar a política do governo Reagan. Com raras exceções, aborda temas políticos em seus filmes. Uma dessas exceções é Assassinos por Natureza, sobre o mundo da violência e das drogas.

 

 

 

 

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