Oliveira, meu avô

Oliveira, meu avô

Ricardo Trêpa fala de O Estranho Caso de Angélica e reflete sobre sua evolução pessoal e na carreira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2010 | 00h00

Sábado à noite no Arteplex. O público forma filas para assistir aos filmes da Mostra. Ricardo Trêpa movimenta-se entre a multidão. O neto de Manoel de Oliveira virou uma celebridade em São Paulo. Ele veio à cidade para apresentar O Estranho Caso de Angélica, que inaugurou a Mostra na quinta-feira. O próprio Manoel, que completa 102 anos em dezembro, é esperado esta semana. Pilar López de Ayala, que divide a cena com Trêpa - é a própria Angélica -, esteve no Festival do Rio apresentando Lope, de Andrucha Waddington, cujo elenco integra, e agora está com O Estranho Caso num festival na Espanha. "Estamos nos dividindo na promoção", conta Trêpa.

Veja também:

especial A programação completa da Mostra

Ele adora o Brasil, e São Paulo. Na sexta pela manhã, circulando na Av. Paulista, encontrou pessoas que pararam para cumprimentá-lo, e ao avô. Angélica será exibido de novo na quarta, às 21 h, no Shopping Eldorado. Trêpa casou-se recentemente com uma modelo e, a par da atividade como ator, prepara-se para iniciar outra carreira, como restaurateur. "Não serei o chef, mas estou associado a um novo restaurante que vai ser inaugurado em Lisboa. É de uma rede importante, chama-se Al Forno d"Oliva. E fica ao lado da Cinemateca Portuguesa", comemora.

Trêpa é o primeiro a assinalar seu progresso. "Quando iniciei, disseram que era uma invenção do meu avô, mas tenho consciência de ter melhorado. Comecei a fazer teatro, e tomei gosto pelo ofício. Se é para representar, há que fazê-lo direito." Ele sente que o próprio avô lhe dá, progressivamente, mais crédito. "Quando retomou o roteiro de Angélica, que havia escrito há mais de 60 anos, ele quis saber o que achava das modificações que havia introduzido. Não apenas eu, o produtor também lhe fez ver que muita coisa que havia acrescentado, para falar do mundo atual, era supérflua. Manoel nos deu trela."

Ele conta que o avô, quando inicia a filmagem, tem o filme pronto na cabeça. "É incansável. Havia muitas noturnas em Angélica. Estávamos sempre mortos no set e ele queria seguir. Meu avô não mexe a câmera. O movimento de seus filmes vem da voz, dos gestos. Ele é muito preciso. Enquanto não consegue o que deseja, não fica satisfeito." E ele acrescenta - "Meu avô vive num estado de estresse permanente. Vai fazer 102 anos, mas gostaria de viver para sempre, para fazer todos os filmes que deseja. Agora mesmo, tem dois. Qual vai fazer primeiro? Fará o outro? É muita ansiedade." Essa ansiedade não passa na tela. Angélica é uma obra-prima serena. Trêpa concorda.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.