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Olimpíada pandêmica

Proponho uma série de variedades possíveis e democráticas para quem está em casa durante a pandemia conseguir uma medalha de ouro

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2021 | 03h00

Apaixonado por tudo que está rolando em Tóquio, venho aqui propor uma Olimpíada possível e democrática. Trago uma série de modalidades pandêmicas, que poderiam trazer o ouro para quem está em casa, lutando contra a covid com as armas que tem. A seguir: 

Maratona de Séries. O ouro vai para o atleta que conseguir maratonar as séries com mais temporadas. Quem gasta mais com serviços de streaming também ganha pontos extras. Quem sair do sofá com menos de quatro episódios na sequência está desclassificado. O Comitê Olímpico vetou a participação de quem ainda acha graça em Friends. O torneio pré-olímpico obrigou os concorrentes a entregar uma redação explicando o final de Lost.

Mergulho Ornamental em Aplicativo de Delivery. Competição disputada com os dedos. Ela exige velocidade de raciocínio e celular em bom estado. O ouro vai para quem conseguir os melhores descontos e as “entregas grátis”. Saber calcular o tempo de entrega e a distância dos restaurantes também é uma habilidade bem-vinda. Educação e respeito aos entregadores valem pontos – não deixá-los esperando no frio é o movimento básico desta prova. 

‘Ganhamento’ de Peso. Uma consequência da prova anterior. O peso que vale é aquele adquirido em mais de um ano da pandemia. O corpo padrão destes atletas é definido pela barriguinha de chope ou pochete. O índice olímpico foi definido pelos números do colesterol.

Salto com Barreiras por chamadas de vídeo. Leva ouro o participante de reuniões virtuais que não esquecer o microfone desligado na hora em que estiver falando. Animais de estimação que aparecem durante as reuniões ou em lives ajudam seus donos a pontuar. Desclassificação sumária para quem aparecer pelado ou transando. 

Ginástica Rítmica na Fila da Vacinação. Os melhores desta categoria acordam cedo e vão para a fila do posto de saúde. Quem escolhe a vacina vai para o fim do pelotão. Gravar vídeos e fazer selfies durante a vacina são itens obrigatórios. Quem for ao posto vestido de jacaré costuma ganhar a simpatia dos jurados. Infelizmente, muita gente esquece que, para a maioria dos atletas, essa é uma prova em duas etapas. Quem não toma a segunda dose está fora.

Marcha Atlética de Pijama. Apesar de chamar “marcha”, essa prova consiste, basicamente, em caminhadas que vão da sala para a cozinha. O ponto principal é o fato do competidor ser obrigado a permanecer de pijama por 24 horas. Chinelo com meia é outra indumentária fundamental. Leva o ouro quem fizer a atividade mais importante sem tirar o pijama. 

Tiro às Garrafas Vazias de Vinho. Importante prova olímpica que consiste em reunir todas as garrafas de vinho consumidas durante uma semana pandêmica e tentar derrubá-las com o poder da mente. Vale também para os pratos sujos na pia depois de sete dias de relaxamento.


Futebol de botão individual. Modalidade em que um solitário(a) joga futebol de botão contra ele mesmo. Ganha pontos quem, além da partida em si, prepara a própria tabela de jogos, faz uma narração imitando o Galvão Bueno ou o Everaldo Marques. Ganha quem tiver o amigo imaginário mais assustador.

Surfe de Sofá. Modalidade nova na área. Os melhores atletas são aqueles que surfam ondas de faz de conta em cima de belos sofás. Atenção para a postura, movimento dos braços e quadris. Vale colocar surf music para acompanhar a performance. Esporte muito praticado por quem tem experiência em “air guitar”.

Decatlo. Só para superatletas. Consiste em fazer reuniões online, dar de mamar, fazer pão caseiro, ajudar crianças com a lição de casa, se engajar na ioga, no “Fora, Bolsonaro”, em sexo virtual, nas aulas de inglês e na terapia (tudo isso ao mesmo tempo). Achar que vai mudar de vida ou virar uma pessoa melhor depois que a pandemia acabar também conta pontos. 

* Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observador da vida urbana

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