Olhos azuis lança um novo olhar sobre a era de George w. Bush

Vencedor do Festival de Paulínia de 2009, longa de Jofflily forma uma espécie de díptico com O Terminal, de Spielberg

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2010 | 00h00

PARIS

Festival do Cinema Brasileiro de Paris. Um bom público assiste a Olhos Azuis, de José Joffily, no Nouveau Latina, simpática sala do Marais. Olhos Azuis foi um dos vencedores do Festival de Paulínia em 2009. Após a sessão, o diretor encontra-se com o repórter do Estado. Há dez anos o tema do filme perseguia Joffily. A história é real - parte dela, pelo menos - e ocorreu com um amigo do cineasta. Desde que a ouviu, Joffily percebeu seu potencial dramático. Tentou fazer o filme antes, mas não dava. Valeu a espera. Olhos Azuis é bem interessante.

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Trailer. Assista a trechos de Olhos Azuis no site

Forma uma espécie de díptico com O Terminal. Steven Spielberg, americano, conta sua história do ângulo do "estrangeiro", o personagem interpretado por Tom Hanks. O Terminal abre a excepcional trilogia do autor sobre os EUA pós-11 de Setembro. Em nenhum momento, o ataque às torres gêmeas é citado em O Terminal e também em Guerra dos Mundos e Munique, mas o tema de Spielberg nos três filmes é a paranoia dos "gringos" face ao perigo externo e ao ataque do terror. O curioso é que Joffily, ao fazer o seu Terminal - e o projeto antecede o filme de Spielberg -, tenha adotado o ângulo de Stanley Tucci. O "estrangeiro" assume o ponto de vista do norte-americano.

No imaginário do diretor, Olhos Azuis nasceu como um filme de contrastes. São duas histórias cruzadas, ou unidas pelo personagem do oficial de imigração, vivido por David Rasche. Na parte que se desenrola nos EUA, toda em interiores (ou num interior, a sala de espera e o escritório de Rasche), o espaço é fechado, os planos idem, quase não há música, a trilha é formada de ruídos. É nesse espaço que Rasche encarna o espírito intransigente da paranoia da era George W. Bush. Na outra, o oficial viaja ao Brasil em busca da filha do imigrante brasileiro. Ele está terminal, liga-se a uma prostituta e, com ela, roda o sertão, em busca da garota. Essa parte se passa em externas, com cores fortes, muita música. Conscientemente, ou não, Joffily aborda um tema clássico do cinema americano, a segunda chance. O filme termina como o clássico Nasce Uma Estrela, de George Cukor. Foi intencional?

"Na verdade, o último plano estava no início e permaneceu até quase a derradeira versão", explica Joffily. Assim como não quis refazer conscientemente, e de outra perspectiva, O Terminal, Joffily não adotou esse desfecho por causa da obra-prima musical de Cukor. "Nem havia pensado nisso. E essas coisas nem sempre nascem de decisões conscientes. Só com o tempo, a gente consegue racionalizar como e por que certas escolhas foram feitas." Mas, nos EUA e na França, Joffily já percebeu que suas escolhas, senão de fato acertadas, são estimulantes para o próprio público. "Na França, mais até, porque de alguma forma eles conhecem mais o cinema brasileiro. Olhos Azuis surpreende porque não oferece aquilo que o público está acostumado a ver. É outro olhar."

Essa é, na essência, a questão em Olhos Azuis, um outro olhar. Seria fácil desautorizar o filme dramaturgicamente; há um incidente fatal que não está bem resolvido. O diálogo e a ação não levam de forma 100% convincente ao que ocorre naquela sala de imigração. Joffily acha que há ali um problema de montagem. Não importa. Olhos Azuis, com os defeitos que possa ter, é interessante pelo debate que proporciona, sobre o espírito belicoso e a culpa dos EUA de Bush.

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