Olho dez vezes antes de pisar na faixa

Agora, a lei manda punir quem desrespeita o pedestre. Como vão fazer? Contratar um funcionário para ficar vigiando cada faixa? Quantas faixas têm na cidade? Quando tem. Nos bairros ditos classe média e ricos, elas existem. Algumas bem apagadas, mas se vê que é uma zebra deitada no chão, conforme um amigo caipira me disse. Se tem coisa que marronzinho sabe fazer é ficar à espreita, bloco na mão. Orientar o trânsito, nem pensar. Bloco na mão e tome o lápis. Vão ter orgasmos junto às faixas para pedestres.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

O marronzinho chega:

- O senhor está em cima da faixa.

- Não estou não.

- Claro, estou vendo o pneu sobre o branco.

- Brequei. Mas entre apertar o pedal e o carro responder, andei alguns centímetros. E olhe bem, o pneu não está nem dois centímetros sobre a faixa.

- Vamos conferir.

O multador tira do bolso uma trena especial, criada pelo instituto de pesos e medidas, para verificar o quanto pneu invadiu a faixa. Mede, e sorri.

- O senhor está sobre a faixa. Veja aqui, 3, 03 centímetros, Ou seja 0,3 centímetros além do permitido.

Apanha o bloco, anota a infração. O sujeito vai receber depois em sua casa. Não se sabe se há possibilidade de recorrer. A trena de medir pneu sobre a faixa possui uma câmera, como um celular, desenvolvida especialmente para o departamento de trânsito. Ela é implacável, como os radares da cidade e das estradas. Não dirijo, mas viajo muito, indo ao interior para palestras, ou percorrendo a cidade em táxis, caronas e etcs. e nunca vi tanto radar na vida. Somos seguidos o tempo inteiro, filmados, grampeados, microfilmados, vigiados. Aliás, nunca vi ninguém ganhar ao recorrer a uma multa de trânsito.

Bem, o assunto são os direitos dos pedestres. Parece-me, ouvi dizer, não garanto, neste caso sou como um vereador deputado ou ministro, eles também nunca garantem nada. Como o Mercadante que é o pior, diz e desdiz na mesma hora. Jamais confie num Mercadante. Fujo ao assunto. Ouvi dizer que para essa questão de invadir ou não a faixa, serão contratados como consultores juízes de futebol, de vôlei e de tênis. Eles têm o olhar agudo para saber se a bola ultrapassou a linha, bateu sobre ela ou saiu milímetros fora. Assim, tais juízes poderão ganhar um extra, conferindo se o pneu está ou não sobre a faixa.

Neste caso, o melhor será não tirar o carro do lugar, até que o "juiz de linha" chegue. Sabemos que coisas oficiais demoram. Chamado, o juiz de linha tanto pode vir dentro de numa hora, ou seis, ou demorar um dia, talvez dois, no caso de estarem apitando jogos fora da cidade. Vai ser um congestionamento só. Imagino o Carlos Tramontina anunciando na SPTV: "Os congestionamentos hoje, por causa dos pneus sobre as faixas, chegaram a mil quilômetros".

Nesse meio tempo, o departamento de trânsito (sei, sei, chama-se CET) vai abrir uma escolinha para formar juízes de linha. Logo haverá um tribunal de pequenas e grandes causas. As grandes para julgar se ônibus, jamantas, caminhões estão sobre a faixa. Logo haverá faculdades e quando há faculdades, serão abertos cursinhos, com Enem e tudo. Assim chegaremos ao infinito. No fundo, minha gente, essa questão pedestre-motorista só pode ser resolvida com uma medida: educação. Para o pedestre e para o motorista. Só que sou um pessimista. Mas educação esse povo jamais terá com o governo e o ensino que aí estão. Multas sobre as faixas? Ora, se nem os carrões que estão matando pessoas sofrem sanções. Quanto a mim, pedestre, vou continuar olhando dez vezes antes de atrasar a faixa, não sou bobo, não!

A maratona do Paladar. Envergando um dólmã de chef fui falar na maratona, que o Paladar promoveu no hotel Hyatt, e adorei percorrer salas e salas, corredores, ver panelas, garrafas de vinho, chefs graduados. A primeira pessoa com quem dei de cara foi Janaina Rueda do Dona Onça, onde como habitualmente um perfumado picadinho à antiga. Ao lado de companheiros não especializados, Luis Fernando Verissimo, Fernando Gabeira e Humberto Werneck, nos divertimos e falamos sobre o que nos deu na cabeça em matéria de comer. Acho que o público gostou, nossas salas estiveram lotadas. E, vejam só, ontem, recebi em casa uma caixa de ovos caipiras, amarelos, densos, que eu disse serem tão difíceis hoje, Maria Luisa Santarini Moreira Porto trouxe pessoalmente. Junto um velho volume dos Contos de Fadas editados nos anos 40 pela Vecchi que fizeram minha cabeça na infância; e ainda fazem.

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