Olhares em diálogo

Museu na antiga Colônia Juliano Pereira é reaberto com duas novas exposições

HELOISA ARUTH STURM / RIO, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2013 | 02h11

O prédio modernista dos anos 1950 abrigou, durante décadas, pacientes com distúrbios psiquiátricos. Era a antiga Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, onde o artista sergipano Arthur Bispo do Rosário (1909- 1989), diagnosticado esquizofrênico-paranóico, viveu durante quase 50 anos. O local possui desde 1982 um museu que, por não estar no eixo da zona sul carioca, ainda é pouco conhecido. Neste sábado, depois de mais de um ano fechado, o espaço reabre com galerias reformadas, uma programação especial e duas mostras coletivas de artistas que dialogam com a obra de Bispo.

"Todas as exposições partem da obra dele. Não tem que ser um museu com uma exposição permanente do Bispo. Tem que ter o pensamento permanente dele", afirma o curador Wilson Lazaro. A exposição Sem Fronteiras ocupa a galeria do Complexo Cultural Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea onde antes funcionava o refeitório do hospício, e traz obras de artistas convidados e do artista sergipano.

"O Bispo rompe com tudo. Rompe com a Academia, com a escola de arte, questiona a psiquiatria, utiliza a instituição. Ele foi o primeiro a fazer a reforma, por isso esse pensamento de não fronteira." Apesar de ser um paciente na colônia, era Bispo quem ditava suas próprias regras e inclusive mantinha a chave de suas celas-ateliê, onde, durante 50 anos, confeccionou seu acervo de 806 obras, guardado no local.

Entre elas, as "vitrine-fichário", que serão apresentadas pela primeira vez em conjunto: um mosaico em azul de nomes, cargos, situações do cotidiano, pessoas que passaram pela vida de Bispo ou que ele conheceu em suas leituras de exemplares da extinta revista O Cruzeiro. "Ele fazia pesquisas. Isso não é loucura, é sintoma de tentar representar o cotidiano do universo dentro de uma obra."

Artistas convidados, como Anna Maria Maiolino, Cildo Meireles e Miroslaw Balka, estão presentes na mostra coletiva para mostrar os links com a construção do pensamento de Arthur Bispo do Rosário. O venezuelano Javier Téllez passou a infância visitando o hospício onde o pai, psiquiatra, trabalhava. Resgatou as memórias do contato que teve com os pacientes para criar um vídeo onde pessoas tentam atravessar a divisa entre o México e os Estados Unidos. A performance tem toda uma carga metafórica. O objetivo é ultrapassar a fronteira. Os atores são pacientes mentais.

O museu também detém a guarda de 470 obras de artistas que foram internos da Casa de Saúde Doutor Eiras, em Paracambi, a 80 quilômetros do Rio, instituição manicomial que sofreu um processo de intervenção estadual em 2000 e foi fechada no ano passado. Os trabalhos de 17 desses pacientes estarão reunidos na mostra coletiva Ressucita-me, que ocupa outras duas galerias do Complexo Cultural.

Na exposição, não dá para saber quem é são e quem não é. Interconexões são feitas entre as criações produzidas do lado de dentro e de fora dos muros do antigo hospício de Paracambi. "A ideia é mesmo ficar um pouco confuso do que é Paracambi e o que não é", afirma o curador.

As pinturas do português Artur Barrio fundem-se às de Clóvis dos Santos, um ex-morador de rua que já participou da Bienal de São Paulo e hoje é aluno da Escola Livre de Artes, que funciona no museu. "É uma pintura totalmente densa e emocional, não tem nada de matemática", diz Lazaro. Na escola são oferecidas oficinas gratuitas de fotografia, vídeo, música, desenho e expressão corporal.

Os alunos são moradores do entorno e também pacientes do Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira. Um deles é Sebastião Swayzer, cujas pinturas serão expostas ao lado das obras de Bispo. Para Lazaro, o que está em destaque não é tanto o conceito ou as técnicas utilizadas pelos pacientes, mas sim observar o modo como eles ultrapassam uma série de limites pra conseguir produzir arte.

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