Olhar sobre o urbano

Antonio Risério articula influências em A Cidade no Brasil

Hugo Segawa, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h09

A cidade é das mais antigas invenções humanas ainda em vigência. Não só uma fascinante invenção, como uma permanente reinvenção que lhe assegura uma intranquila perenidade. Um artefato de sólida materialidade construído de camadas adensadas e saturadas ao longo do tempo e uma criação de indecifrável intangibilidade que acompanha a humanidade.

O complexo objeto é mais um desafio encarado pelo antropólogo e poeta baiano Antonio Risério, autor de diversos livros e escritos de intensa amplitude temática e cultural há 30 anos. O título A Cidade no Brasil é um oferecimento que pode provocar o espírito de urbanistas, geógrafos, arquitetos, historiadores, cientistas sociais, ambientalistas e tantos outros profissionais ou interessados nas questões urbanas. Desacompanhado de subtítulo, o livro pode inspirar muitas expectativas sobre um tema plenamente contemplado por estudos que permitem formar uma biblioteca de clássicos da literatura acadêmica nacional.

As dezesseis páginas de referências bibliográficas em letras miúdas podem insinuar a completude de uma tese. Todavia, o livro não traz uma proposição desta natureza. O autor assume um enfoque "predominantemente histórico e socioantropológico", percorrendo as searas da estética, da arquitetura e do urbanismo. Alerta que não vigora "a busca, o afã ou a obsessão da originalidade". Num "desenho simples", usando ainda suas palavras, Risério organiza um "elenco de ensaios", ou uma espécie de "macroensaio", reconhecendo o título pretensioso da obra. Ele se declara um leitor atento a várias fontes, frentes, posições e direções preexistentes. Suas leituras conduzem a ordenações de ideias e interpretações que, afastadas da pauta da especialização e do aprofundamento, sugerem (resgatando seu esclarecimento aos leitores) um "palimpsesto intelectual e intertextualidade citadina", um livro não "eruditamente encerrado em si mesmo".

Há uma erudição subjacente que não se evidencia graças à elegância literária e pela ausência de notas de rodapé. No entanto, pela destreza para percorrer muitos cenários, fatos, personagens, agentes, sujeitos, abordagens, perspectivas, acompanhado de autores, livros, passagens e citações, é possível que leitores se sintam intimidados pelo fluir caudaloso de referências e ideias. Ao iniciar seus ensaios desde os ameríndios e as culturas pré-cabralinas ("Pontos de partida"), percorrendo as atitudes dos nossos colonizadores ("Cidade ibérica na América"), as urbanidades seiscentista a oitocentista ("Cidades do ouro, cidades da Amazônia", "Floreios em busca da África", "Sertão, cidade, segregação", "Cidades e Migrações") e a modernidade e a contemporaneidade ("Vanguarda, memória e utopia", "Aspectos de agora"), Antonio Risério facilita uma percepção geral da narrativa através de uma deliberada linearidade cronológica. E ao observar o sequenciamento, é possível constatar lacunas. Mas o autor não é tão responsável por elas. Ele judiciosamente esquadrinhou a bibliografia pertinente disponível e, se autores e títulos estão ausentes, isto não afeta em demasia o modo como o exame dos fenômenos urbanos foi feito. Mas constata-se, por exemplo, a pouca nota às cidades no Brasil da primeira metade do século 19. A literatura a respeito, recente, não passou pelos prelos: repousa quieta nas estantes das bibliotecas dos cursos de pós-graduação.

O autor examina a cidade enquanto morfologia urbana; ou como palco de sociabilidades; ou ambiente das mobilidades e das expressões poéticas e artísticas de imigrantes; das socioespacialidades da segregação; a mitologia preservacionista sobre a Amazônia; ou... Longe de poder mapear tantos modos do autor olhar e discutir a cidade, o urbano brasileiro merece múltiplas aproximações e juízos de uma riqueza e diversidade que são uma virtude do livro. E que paradoxalmente atraem um problema. A escrita é de um observador sensível, arguto e inteligente. Mas se desenvolve com saltos inesperados, cortes vertiginosos, andamentos insólitos. Uma certa exuberância indisciplinada, digamos, que ofusca a estrutura da narrativa. Mas essa exuberância me faz lembrar o último Darcy Ribeiro, pela agilidade e agudeza do pensamento. Uma transversalidade nada usual hoje em dia, ousada diante do debruçar cada vez mais diminuto no âmbito, particularizado em domínios, ensimesmados. A Cidade no Brasil é uma retomada de uma visada de um ponto mais alto. E um chamamento ao debate. 

HUGO SEGAWA É ARQUITETO, PROFESSOR DA FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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