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Olhar negro

James Baldwin era fascinado por Bette Davis que, para ele, "andava como uma negra"

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

04 Março 2017 | 02h00

Embalado pelo documentário de Raoul Peck Eu Não Sou Seu Negro, fui pôr em dia uma leitura sempre adiada: as reflexões de James Baldwin sobre cinema.

 

Do Baldwin crítico de filmes conhecia apenas seu elogio a Carmen Jones, versão moderna da ópera Carmen, de Bizet, dirigida por Otto Preminger, com elenco só de negros, incluída na coletânea Notes on a Native Son, editada em 1955, que eu saiba não traduzida aqui; e o reverente ensaio sobre Ingmar Bergman, The Northern Protestant (O protestante do Norte), publicado em 1960, no qual definia Noites de Circo como “um dos filmes mais brutalmente eróticos já feitos”.

 

Nenhum desses dois textos faz parte de The Devil Finds Work: An Essay, a tal leitura adiada, até porque o livro não é uma coletânea de artigos, mas um longo ensaio de 146 páginas, originalmente editado pela Dial Press em 1976. A ideia insinuada no título é a nossa mui conhecida “mente vazia, oficina do diabo”. Fique à vontade para entender que o cinema tem partes com o demo. Ele também seduz, mente e manipula - com mais facilidade as mentes desguarnecidas. Especialmente o cinema de Hollywood, aquele de que Baldwin mais se ocupa e com o qual, mesmo morando na Europa desde os 24 anos, mais conviveu. 

Livro de memórias e análise sociopolítica do fenômeno cinematográfico e suas implicações estéticas, raciais e sexuais, The Devil Finds Work tem como propósito principal examinar como os filmes americanos distorcem a realidade. Já sabíamos disso, mas o olhar esperto e experto do escritor amplia e aprofunda o enfoque como nenhum outro cinéfilo, branco ou negro, realizou de forma tão pessoal.

 

O ensaio é uma autobiografia mediada por filmes que marcaram o autor desde a infância. Qualquer um de nós poderia imitá-lo, e alguns já o fizeram, mas Baldwin, eis a diferença, aproximou-se do cinema como um garoto negro e pobre do Harlem, que, não bastasse tal distinção, cedo sacou as artimanhas do imaginário hollywoodiano e suas subterrâneas intenções sociopolíticas, por ele dissecadas numa gama de filmes que vão desde o épico racista e seminal de David W. Griffith Nascimento de Uma Nação (1915) ao literalmente diabólico O Exorcista (1972). E ainda sobra espaço para um capítulo sobre sua malograda experiência como roteirista em Hollywood, em 1968. Convidado para adaptar a autobiografia de Malcolm X, farejou intromissões indesejáveis em seu script e se mandou. O que teria achado do filme de Spike Lee? Nem O Sombra sabe.

Incisivo, detalhista, por vezes até sarcástico, mas sem perder jamais a ternura, Baldwin não tinha o azedume de determinados críticos, ideologicamente impermeáveis à deleitante fruição cinematográfica. Sou daqueles que desconfiam dos cineastas que confessam “ter descoberto o cinema” assistindo a um filme de Dreyer ou qualquer outro gigante de cinemateca, e não curtindo Chaplin, um desenho animado ou um xodó geracional, que tanto pode ser A Noviça Rebelde como E.T. Baldwin “descobriu o cinema” admirando as costas “lisas, estreitas e solitárias” de Joan Crawford, a saracotear pelo corredor de um trem em Quando o Mundo Dança (Dance, Fools, Dance), o primeiro filme a que assistiu na vida. Tinha 7 anos de idade.

O primeiro nome citado no ensaio, contudo, é o de Bette Davis. Fascínio total por seus olhos esbugalhados, olhos de sapo, iguais aos dele. E que além do mais “andava como uma negra”. Essa parte do livro foi superficialmente referida no documentário de Raoul Peck, que, se bem me lembro, nem sequer faz menção a Orilla “Bill” Miller, a professora branca e bonita que introduziu o moleque Jimmy na magia do cinema e das artes, levando-o às matinês de sábado e ao teatro - e que teatro!: a montagem de Macbeth, com elenco todo composto por negros, dirigida por Orson Welles.

Sylvia Sidney foi outro coup de foudre; a única atriz branca americana que lhe lembrava uma “garota de cor” e, mais do que tudo, o mundo real, certamente por causa de filmes como Vive-se Uma Só Vez e Fúria, modelos de indignação, qualidade que, Baldwin lamenta, “logo desapareceria do cinema americano”. Dos atores, admirava Edward G. Robinson, James Cagney e Fredric March, mas só se identificava com Henry Fonda. Depois de ver Vinhas da Ira, encasquetou que Fonda tinha sangue negro: “Brancos não andam daquele jeito”. Ah, a ginga.

Atores negros? Para identificações e projeções não havia. Sidney Poitier só estreou na tela em 1950. Um dos temas explorados por Baldwin é justamente a desimportância dos personagens e, por tabela, dos atores negros no cinema hollywoodiano, desde sempre empenhado em perpetuar uma visão fantasiosa da realidade da América, na qual o negro mais parece um intruso. Ora subalterno, pateticamente anedótico como os tipos encarnados por Stepin Fetchit, ora vilanesco, na melhor das hipóteses uma variante de Pai Tomás ou uma caricatura supostamente favorável - assim eram os negros da tela.

Daí o intransigente rigor com que Baldwin disseca algumas produções reputadamente afinadas com uma visão liberal do movimento dos direitos civis: Acorrentados (The Defiant Ones), Adivinhe Quem Vem Para Jantar, ambas estreladas por Poitier, grande amigo do escritor, O Ocaso de Uma Estrela (Lady Sings the Blues), cinebiografia de Billie Holiday, e No Calor da Noite (In the Heat of the Night). 

“Impossível aceitar a premissa de Acorrentados, baseada num profundo desconhecimento da natureza do ódio entre negros e brancos”, Baldwin argumenta, questionando o mito da fraternidade inter-racial cuja procedência ele próprio testou em dois cinemas de Nova York frequentados por negros. Quando Poitier se joga do trem para juntar-se ao branco Tony Curtis, a plateia de Uptown Manhattan gritou “Volte pro trem, seu bobo!”, e a de downtown, sensibilizada com a atitude magnânima de Poitier, aplaudiu.

 

Fiquei particularmente gratificado ao verificar ter feito mais ou menos as mesmas restrições de Baldwin a Adivinhe Quem Vem Para Jantar quando comentei o filme no Jornal do Brasil, em 1968. Aquele casamento inter-racial tampouco me convenceu. Assim como nunca me enganou o ocaso de Billie Holiday sanitizado na tela com Diana Ross no papel principal. Tinha tanto a ver com a barra pesada enfrentada pela cantora e os negros quanto a princesa Grace Kelly com a grande fome na Irlanda no século 19, pilheriou Baldwin. (Grace descendia de irlandeses.) 

Baldwin tinha boas tiradas. Ainda sobre Lady Sings the Blues, esta pérola: “O roteiro do filme é vazio como uma casca de banana, e tão traiçoeiro quanto”. 

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