Olhar internacional. Entrevista.

Daniel Dreifuss é mineiro, mas vive em Los Angeles e conta como é ser o 'produtor gringo' do chileno No

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h11

No, longa do chileno Pablo Larraín, estrelado por Gael Garcia Bernal, ainda não estreou comercialmente em nenhum país fora do Chile, mas desde a pré-estreia mundial em Cannes, em maio, até a última exibição na abertura da 36.ª Mostra de Cinema de São Paulo, na quinta, passando pelo festival de Nova York na semana passada, vem sendo apontado como um dos melhores filmes latinos do ano.

Candidato do Chile ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013, o longa se passa em 1988 e retrata a saga do publicitário René Saavedra, criador da campanha do "Não" ao governo do chileno Augusto Pinochet, por ocasião do plebiscito convocado pelo próprio ditador, que sofria fortes pressões internacionais. Pinochet acreditava que a população chilena escolheria "Sim", que permanecesse no poder.

Bela escolha para abrir a Mostra, evento que, pelo caráter de seus filmes poderem ser apontados por voto popular, já foi o único espaço em que se poderia votar no Brasil durante a ditadura militar. No é uma bem-sucedida experiência de coprodução internacional. Combina o fator local, no caso o tema e os talentos chilenos, ao potencial comercial que o projeto ganha ao ter um produtor baseado em Hollywood e que pensa o projeto globalmente. "Mas o lado americano deste filme é brasileiro", brincou o produtor mineiro Daniel Dreifuss durante a cerimônia de abertura da Mostra, fazendo rir a plateia que lotava o Auditório Ibirapuera.

Apesar de parecer um tanto inusitada, a participação de Dreifuss no "filme chileno do Oscar 2013" é o desfecho de uma história que começou há décadas, quando o Brasil ainda vivia a ditadura e o produtor era um garoto mineiro que acompanhava os pais na campanha das Diretas Já. Filho de professores - seu pai é René Dreifuss, autor de 1964: A Conquista do Estado -, em 2003, ele deixou o Rio, onde cursou Comunicação, para morar em Los Angeles, depois da morte do pai. Dreifuss foi recebido na casa de uma amiga chilena de sua mãe, viúva de um refugiado do regime de Pinochet.

"Por essa e outras razões, quando o roteiro de No chegou até mim, pelas mãos dos irmãos Larraín, Pablo e Juan (produtor), foi a primeira vez que senti que este era um filme não só que eu queria fazer, mas que tinha de fazer", contou o jovem produtor, de apenas 33 anos, que com No assina sua primeira produção de longa-metragem. Sobre cinema e, claro, No, Dreifuss e conversou com o Estado.

Em Cannes, quando No integrou a Quinzena dos Realizadores e fez sua pré-estreia mundial, as pessoas se surpreendiam não só pelo formato como pelo fato de um brasileiro ter produzido um filme chileno. Como o projeto chegou até você?

Tudo começou com o trabalho que faço num programa de imersão, em parceria com o American Film Market, em que levo produtores e diretores da América Latina para passar uma semana em Los Angeles, para as agências e estúdios, para conhecer e entender o que é e como funciona a indústria americana. São pessoas que já fizeram sucesso em seus países e querem entrar para o mercado americano ou fazer coproduções. Há cerca de dois anos, o Juan de Dios, irmão do Pablo, participou do projeto e apresentou de um processo de treinamento de pitch. E esse projeto era o de No. Quando ouvi a ideia, a única pergunta que fiz foi: "Por que isso não é um documentário?" E ele respondeu que a história teria de ter um ponto de vista dramático, que contaria a história de um executivo de marketing que trabalhava atrás das câmeras e este cara era o personagem do Gael, um amálgama de vários personagens reais.

E como você enxergou o potencial desse tema, tão chileno e local à uma primeira mirada?

Percebi que aquela ideia era muito atual, tinha a ver com o momento pelo qual o mundo passa. Essa questão de que as pessoas possam usar a mídia de massa, as mídias sociais (naquela época era só a TV), para se comunicar e mudar o destino, criar mudanças políticas, sociais, na legislação de seus países, para criar direitos, é tão importante e atual. Tinha de ser contada. Mas era uma história tão chilena. E fiquei quebrando a cabeça em como aquilo podia ser feito. Ao mesmo tempo, queria voltar a trabalhar com a América do Sul de novo, como produtor em Hollywood.

Você se identifica pessoalmente com o tema do filme?

Muito. Fui criança no Brasil nos anos 80. Lembro do fim da ditadura, da campanha das Diretas Já. Eu tinha a mesma idade que o personagem do Gael no filme. Meu pai era cientista político e escreveu sobre a ditadura. Lembro que minha mãe nunca tinha votado, pois quando atingiu a maioridade não se podia votar no Brasil. Eu me senti muito como o menino do filme, que acompanha a história, mas não entende muito. Que via o que estava acontecendo e não entendia nada. Para terminar, quando o Juan disse que o protagonista se chama René, nome do meu pai, pensei: "Gente que coisa engraçada". René não é um nome que se escuta muito na América Latina. E o personagem me lembrava também meu pai. Tem a ver com a minha infância, com a história do Brasil e de ter vivido na época da transição para a democracia, com o fato de eu ter convivido com pessoas que foram perseguidas pela ditadura de Pinochet e conhecer essa história pelo olhar deles.

Sem contar o talento do Pablo Larraín e de poder trabalhar com Gael, um dos atores mais politizados e atentos do mundo, não?

Sim. Tinha muita vontade de trabalhar com eles. Mas disse ao Juan que o projeto tinha de ser maior que o Chile, ainda que fosse uma joia chilena. Tinha de ser uma coprodução com os EUA, o orçamento precisava subir, para que o filme tivesse visibilidade no mundo todo e passasse sua mensagem.

No traz uma mensagem política e humanista universal então.

Exatamente. E por isso tinha de ser um projeto internacional. Para que a mensagem de que "se dez pessoas na década de 80 conseguiram fazer isso no meio de uma ditadura, por que você, no seu país, na sua realidade, não pode?" Para que se possa lutar por sua felicidade, seja qual ela for, porque cada país tem sua própria. Mas, para que isso pudesse ser entendido, o filme tinha de ser o menos hermético possível, não tanto "por chilenos para chilenos". É aí que entra meu trabalho, o de torná-lo o mais universal possível. Se a gente conseguiu fazer um filme bom o suficiente para tocar pessoas de outras culturas e inspirá-las a lutar e promover sua própria alegria, então cumpri meu papel. Foi por isso que entrei para o filme.

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