Olhar humanista compensa raras deficiências

O panorama de Minhas Tardes com Margueritte, de Jean Becker, é uma França interiorana, na qual as pessoas ainda têm tempo para conversar e fazer de um bistrô um ponto comum de sociabilidade. Idealização? Pode ser. Mas em cidades pequenas isso ainda é possível.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2011 | 00h00

De qualquer forma, nem se trata de cobrar algum realismo a uma história que se coloca em patamar diferente. O tema principal de Minhas Tardes - e aqui estaria a sua idealização - é a capacidade de a cultura fazer as pessoas melhores. Em especial, a cultura livresca, que muita gente teima em classificar como em via de desaparição. Na história, Germain é um homem de poucas luzes que faz amizade com a idosa Margueritte (Gisèle Casadesus). Conversa vai, conversa vem, ela o convence a se iniciar nas artes da literatura. Como ele não tem prática, ela começa a ler em voz alta. A escolha é boa: nada menos que A Peste, de Camus. Margueritte mostra como a alta literatura pode ser bem recebida mesmo por um homem pouco cultivado.

O filme tem escorregões melodramáticos, pequenos, que não comprometem sua beleza singela. Há, sim, um olhar generoso de Becker sobre a cultura humanística e seus efeitos benéficos sobre as pessoas, olhar que compensa de longe qualquer problema. Boa leitura e relações humanas generosas - quem pode ser contra isso? Mas é claro que essa história em particular se sustenta porque ver Depardieu em cena é o máximo. E a Margueritte, de Gisèle Casadesus, revela-se simplesmente encantadora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.