Olhar feminino sobre a solidão dos homens

A atriz e diretora Ida Lupino evita os clichês na abordagem de uma vida dupla em 'O Bígamo', com Edmond O'Brien

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2014 | 02h06

Filha de um grande ator inglês de teatro, Ida Lupino virou estrela em Hollywood, participando de filmes clássicos de Raoul Walsh e Michael Curtiz na Warner. Interessando-se cada vez mais pelos bastidores do cinema, escreveu e produziu Not Wanted em 1950 e no mesmo ano estreou na direção com Quem Ama Não Teme. Foi uma das primeiras mulheres a dirigir em Hollywood e o fato de ser uma estrela - que a Warner quis transformar na nova Jean Harlow - dificultou ainda mais a tarefa.

Como diretora, ficou famosa por seus melodramas de personagens femininas, abordando a condição da mulher na sociedade. O estupro em O Mundo É o Culpado, a exploração pela família em Laços de Sangue. Ida Lupino fez filmes que confrontaram a 'América' com seus preconceitos. Mas não lhe bastava filmar a mulher. Alguns de seus melhores filmes (os melhores?) abordam o universo masculino.

Um bom exemplo é O Bígamo, de 1953, que a Cult lançou em DVD (R$ 29,90). Casado com Joan Fontaine, Edmond O'Brien habilita-se à adoção de uma criança com a mulher, mas suas evasivas durante a entrevista preliminar despertam suspeita. É feita uma investigação e a verdade explode. Ele é bígamo e tem outra família. Foi o único filme em que Ida também se dirigiu. Ela faz a 'outra' mulher de O'Brien.

Muitos críticos gostam de comparar Ida Lupino a Nicholas Ray, de quem foi atriz em Cinzas Que Queimam. O Bígamo poderia ser um filme de Ray pelo olhar cheio de compaixão que Ida lança sobre esse homem solitário, que realmente ama suas duas mulheres. Nenhuma delas é um estereótipo, pintada para ser vilã da história. Ele não é um monstro. Todo mundo sofre. Seu outro filme sobre os homens é O Mundo Odeia-me, sobre um gângster que apavora dois automobilistas.

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