Olhar estrangeiro

Mostra de Olafur Eliasson e curador da Bienal deram tom internacional à arte brasileira

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2011 | 03h08

Uma imagem do Rio Reno feita pelo alemão Andreas Gursky foi vendida em novembro por US$ 4,3 milhões e se tornou a fotografia mais cara de todos os tempos. Não há dúvida: o mercado internacional de arte vai bem, com quadros e esculturas vendidos a altos preços (Bichos, de Lygia Clark, foi adquirido por US$1,5 milhão na Suíça) - e, no Brasil, novas feiras também movimentaram o cenário, como a ArtRio ou a PARTE.

Em Veneza, a Bienal foi um balde de água fria, atribuído à decisão da curadora Bice Curiger de centrar em criadores da Europa e dos EUA uma mostra fria, Iluminações. O Brasil teve pouquíssimo destaque na Bienale, apenas a representação nacional no pavilhão brasileiro com a exposição de Artur Barrio e a exibição de um vídeo do cineasta Neville D'Almeida em coletiva latina.

Em outras bienais, porém, brasileiros fizeram bonito, como em Lyon e Istambul. A 8.ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, com curadoria do colombiano José Roca, acertou ao estender as atividades para além da capital gaúcha e ao tratar da questão das fronteiras e territórios. O Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo também apostou no tema do deslocamento e mudanças.

A Bienal de São Paulo, por sua vez, em uma decisão equivocada, resolveu comemorar seus 60 anos com uma mostra que apresentou as estrelas do cenário norte-americano, indicação do projeto crescente de internacionalização que levou à escolha do venezuelano Luis Pérez-Oramas, do MoMA, de Nova York, como curador-geral da 30.ª bienal, em 2012.

O momento de evidência do Brasil no exterior se refletiu na capacidade de atrair ao País artistas como o dinamarquês Olafur Eliasson, que expôs na Pinacoteca do Estado, no Sesc Pompeia e no Sesc Belenzinho, dentro da programação do Videobrasil, que optou por perfil mais abrangente, incorporando outras linguagens. Outros destaques internacionais foram a retrospectiva do inglês Anthony McCall, o criador dos filmes de luz sólida, na Luciana Brito Galeria; e a exposição Louise Bourgeois: O Retorno do Desejo Proibido, primeira mostra de caráter retrospectivo, na América do Sul, sobre a produção da escultora franco-americana, exibida no Instituto Tomie Ohtake e no MAM do Rio.

Instituições. A Pinacoteca, com uma nova mostra de longa duração, reformulou e oxigenou a exibição de sua coleção. No mais, polêmicas e imbróglios. Após meses de negociações, a transferência do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP para sua nova sede, o antigo prédio do Detran, no Ibirapuera, ficou para 2012. Ainda assim, dirigido por Tadeu Chiarelli, o MAC inaugurou a mostra Modernismos no Brasil, apresentando os grandes destaques de sua vasta coleção.

No Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo, houve troca na direção. Por uma iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura, saiu do cargo Daniela Bousso, substituída pelo cineasta André Sturm - e, de centro destinado a novas mídias, o museu deve centrar agora seu perfil no audiovisual e na fotografia.

Outros episódios desgastantes de 2011 estiveram relacionados à Fundação José e Paulina Nemirovsky, detentora de uma coleção de arte avaliada em mais de R$ 100 milhões e doada, em regime de comodato, ao governo do Estado de São Paulo, e ao Instituto de Arte Contemporânea (IAC).

Uma briga judicial desencadeou mudança generalizada na entidade - membros da diretoria e conselheiros, entre eles o presidente Jorge Wilheim, renunciaram a seus cargos e o Ministério Público Estadual (MPE) precisou intervir para que a coleção não ficasse apenas na mão da família Nemirovsky. O ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, tornou-se novo presidente do conselho.

Próximo ao fim do ano, a decisão do espaço Oi Futuro, no Rio, de não exibir a mostra da fotógrafa norte-americana Nan Goldin por conter o que foi considerado "impróprio" para o público, levou a um debate sobre censura e arranhou a reputação da instituição - a mostra será abrigada pelo MAM do Rio, com abertura apenas em 2012.

As artes plásticas também perderam grandes nomes em 2011, como os pintores Lucian Freud e Cy Twombly ; o pioneiro da land art, o norte-americano Dennis Oppenheim; o fotógrafo e cineasta húngaro-brasileiro Thomaz Farkas; e o artista pop britânico Richard Hamilton

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