Olhar estrangeiro

Sem Barghouti, Flip recebe brasileiros para nova conversa sobre revoluções

MARIA FERNANDA RODRIGUES, ENVIADA ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2013 | 02h09

O poeta palestino Tamim Al-Barghout, uma das presenças mais incertas da 11.ª Festa Literária Internacional de Paraty, que terminou ontem, mandou carta à organização lamentando não ter conseguido vir ao País. Depois de uma saída conturbada do Cairo, ele chegou a Londres, onde perdeu o passaporte - ou foi roubado, não sabe. "Vocês me ofereceram o presente precioso da distância, a possibilidade de olhar de fora essa complexa e surreal pintura. Mas ninguém pode fugir quando as manifestações, os tiros e a guerra estão dentro da sua cabeça", escreveu. Na carta, comenta ainda que o corpo diplomático brasileiro em Londres ligou e se ofereceu a ir até o aeroporto caso ele precisasse de assistência.

O mediador Arthur Dapieve disse que não foi difícil encontrar substitutos de origem árabe entre os convidados da Flip. Afinal, há entre 12 milhões e 15 milhões de descendentes no Brasil. O escritor e cronista do Caderno 2 Milton Hatoum e o filósofo Vladimir Safatle foram escalados. Professor da USP e tradutor, Mamede Jarouche estava na formação inicial da mesa e também participou da conversa que abordou, entre outros temas, as passagens de Jarouche e Safatle na Primavera Árabe e ainda o papel da literatura e a produção artística em tempos revoltosos. Antes de começarem, porém, Jarouche leu, em árabe, o poema Em Jerusalém, de Barghouti.

O professor não conhece o poeta que teve seus textos cantados na Praça Tahir durante os protestos que derrubaram o ditador Mubarak, mas por acaso estava no Cairo quando tudo começou, em janeiro de 2011. Viajou para fazer pesquisas - ele trabalha com textos escritos até o século 12 -, e para visitar a feira do livro. "Estava lá com a minha alienação, pensando no Cairo mameluco, e o Cairo atual, moderno, se impôs. Foi uma coisa apavorante, mas talvez a mais tocante que eu já vi", comentou. Bibliotecas fecharam, a circulação ficou restrita, e ele assistiu aos protestos. Já Saflatle visitou o Egito, a Tunísia e a Palestina no ano passado. Sua ideia era ver o "movimento político a posteriori".

O tema da mesa era Literatura e Revolução. Sobre a relação entre as duas, Jarouche disse: "Muitos autores do mundo árabe se dizem revolucionários porque escrevem sobre a revolução, mas não vejo nisso uma literatura revolucionária." Para Milton Hatoum, a literatura não deve ter um caráter doutrinário ou explicativo: "Se tentar fazer isso, ela se enfraquece". A ausência de produções culturais que reflitam sobre o clima dos protestos brasileiros foi levantada. Safatle argumentou que a criação anda atrelada a financiamento e, portanto, são dirigidas pelo interesse do patrocinador.

Hatoum não testemunhou as manifestações do mundo árabe, mas previu as que têm mobilizado brasileiro. Na crônica Estádios Novos, Misérias Antigas, publicada em 26/06/12 no Caderno 2 e lida no encerramento da mesa, escreveu: "E quando a multidão enfurecida cobrar a dignidade que lhe foi roubada, digam com um cinismo vil que se trata de uma massa de baderneiros e terroristas. Digam qualquer mentira, mas aí talvez seja tarde. Ou tarde demais."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.