Olhar estético na idade média

Olhar estético na idade média

Estudo de Umberto Eco desfaz equívocos sobre a era antes tida como sombria

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

Umberto Eco tinha apenas 27 anos quando lançou Arte e Beleza na Estética Medieval, em 1959. Originalmente tinha o título Sviluppo dell"Estetica Medievale, que tanto pode significar "desenvolvimento" como "evolução" da estética medieval. Parece um detalhe insignificante, mas não quando se considera a ausência de uma teoria formal, "estética", na Idade Média. O jovem Eco lembra que a "estética" medieval é simples de entender: invariavelmente, ela se confunde com a beleza ideal, um atributo de Deus. E, no plano teórico, foi um longo período ? dez séculos até o Renascimento ? de uma luta sem trégua contra o dualismo maniqueu para excluir o mal do plano da criação.

A estética medieval nada tem a ver com a contemporânea, que coloca em cena as próprias contradições, incorporando o "mal". Embora convivesse com a peste, a fome, a miséria, a ferocidade e a luxúria, a Idade Média ignorou o espetáculo da realidade para se concentrar na ordem metafísica da beleza, oposta ao circo da arte contemporânea. A Idade Média não podia suportar a contradição de ver o belo fora de lugar, ausente do plano divino. Isso leva à inevitável pergunta: como definia o homem medieval a autonomia da beleza artística se as criaturas apenas imitavam as coisas criadas por Deus?

Para responder à pergunta, Eco recorre basicamente a dois pensadores que refletiram sobre a questão antes dele: um antigo, o teólogo e filósofo italiano Tomás de Aquino (1225-1247), sobre quem escreveu seu primeiro livro, em 1956, e um moderno, o acadêmico belga Edgard de Bruyne. Eco admite que seu livro é um resumo de pesquisas precedentes, mas isso não significa falta de originalidade. Ao contrário. Eco mostra como é falsa a impressão de que a Idade Média não teve sensibilidade estética e foi um período bárbaro, mergulhado nas trevas entre a Antiguidade Clássica e o Renascimento.

De todos os capítulos de Arte e Beleza na Estética Medieval, o quinto é o que define a essência do pensamento formal da Idade Média. Mais que o rigor geométrico, a estética medieval é sinônimo do gosto pela cor e pela luz. Não por outra razão, as catedrais góticas são construídas em função dos raios de sol que penetram pelas aberturas de sua estrutura, incorporando a analogia da relação da luz com o divino. Eco desenvolve uma tese sobre o emprego de ornamentos na decoração das igrejas medievais. Esses, segundo o italiano, despertariam nos espectadores um prazer perverso ao serem atraídos justamente por figuras demoníacas. E é justamente essa "deformidade formosa" que ele depois vai explorar em História da Beleza e História da Feiura.

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