Olhar delicado para rito de passagem

O Último Verão de la Boyita trata de maneira sensível de tema complicado

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2010 | 00h00

 

 

 

El Último Comandante. Tema explosivo: sandinista quer abandonar revolução nicaraguense

 

 

    Com um filme intimista argentino (O Último Verão de La Boyita) e uma coprodução entre Brasil e Nicarágua de cunho político (El Último Comandante), fecha-se o cardápio dos longas-metragens concorrentes do 20.º Cine Ceará. Os prêmios do festival cearense serão anunciado hoje no Cine Sesc/São Luiz, em noite que promete, porque terá também a exibição fora de concurso do documentário Matar um Elefante, de Alberto Arce e Mohammad Rujailah, sobre o conflito no Oriente Médio. O diretor do festival, Wolney Oliveira, conta que ficou chocado ao ver esse filme, que traz imagens jamais vistas de combates entre israelenses e palestinos. "A maior parte das cenas é filmada do interior de uma ambulância, e nos sentimos em pleno campo de batalha", diz.

Esse clima bélico prometido para a noite de encerramento contrasta com a delicadeza de O Último Verão de La Boyita, da argentina Julia Solomonoff. Obra de alma feminina, fala do rito de passagem da adolescência para a idade adulta, com a descoberta da sexualidade e dos mistérios das diferenças entre os sexos. Jorgelina (Guadalupe Alonso) passa férias na fazenda que o pai, médico em Buenos Aires, mantém no interior. Lá ela reencontra Mário (Nicolas Treise), filho de agricultores da região e seu companheiro de brinquedo. Mas o garoto parece doente, pois apresenta estranhos sangramentos quando anda a cavalo. Aliás, ele é excelente cavaleiro e prepara-se para disputar uma corrida local.

Julia, nesse que é seu segundo longa-metragem, trata desse assunto complicado com sutileza. Maneja uma câmera amiga, que passeia pelos detalhes do campo e desenha uma bucólica vida interiorana. Um verão intenso, com banhos no rio, cavalgadas e descobertas, tempo de angústia para o adulto em formação, ainda mais quando defrontado a uma sexualidade ambígua e, portanto, perturbadora. Nesse mundo de luz e sombras, pode-se dizer que a cineasta consegue, com simplicidade, colocar um olhar límpido, que clareia as coisas e as dispõe em seus lugares, sem, contudo propor soluções fáceis ou finais felizes artificiais. Um belo filme. La Boyita, para esclarecer o título, é apenas o trailer no qual a família se desloca pelo interior.

El Último Comandante, de Vicente Ferraz e Isabel Martinez, seria exibido após o fechamento desta edição. Fala de um tema explosivo, dentro do dogmatismo revolucionário da esquerda latino-americana. Seu personagem é um comandante sandinista que resolve abandonar a revolução nicaraguense e tornar-se professor de dança na vizinha Costa Rica. Ferraz já é conhecido do público brasileiro por seu documentário Soy Cuba ? O Mamute Siberiano, que participou de festivais (venceu o de Gramado) e foi lançado em circuito comercial. Fala de um filme da era da Guerra Fria ? Soy Cuba ? dirigido na ilha de Fidel por um cineasta soviético. O filme havia caído no limbo até ser redescoberto por cineastas como Martin Scorsese e reconhecido como obra-prima.

 

 

 

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