Olhar de Giacometti

Retrospectiva do escultor e pintor será inaugurada no sábado na Pinacoteca reunindo quase 300 obras

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2012 | 03h06

O olhar direto, resultante da linha reta entre os olhos do pintor e seu modelo, é uma das chaves fundamentais para se entender a obra de Alberto Giacometti (1901-1966). "Ele cresceu em um ateliê, desde criança posava para o seu pai, o pintor Giovanni Giacometti", diz a curadora Véronique Wiesinger. Nas salas da Pinacoteca do Estado, a especialista, diretora da Fondation Alberto et Annette Giacometti de Paris, prepara os últimos detalhes da mostra que será inaugurada no sábado no museu e que apresenta, pela primeira vez no Brasil, todas as vertentes da obra de Alberto Giacometti. A pintura e a escultura estão sempre interligadas em toda a trajetória do artista, ele as cria (além da gravura e do desenho) por toda a sua vida. Para ele, uma cabeça, escultórica ou pictórica, é como uma maçã das naturezas-mortas de Cézanne; e a figura, assim, muito mais do que a representação fotográfica, diz a curadora.

A frontalidade do olhar do pintor e escultor com seu pai se vê refletida em suas criações, mas os olhos, para Giacometti, são mais do que isso - eles analisam tudo, "comem o mundo". "Sua arte é carregada, sua figura, perigosa", diz a curadora. Há a rudeza nas conhecidas (e milionárias) esculturas de bronze dos homens e mulheres delgados e alongados de Giacometti, mas suas obras afirmam ainda "que os seres são leves porque estão vivos". "É uma figura que se levanta, representada com o mínimo. Na verdade, os mortos é que se tornam pesados", completa Véronique.

Aos 14 anos, Giacometti fez sua primeira pintura (uma natureza-morta) e sua primeira escultura (um busto de seu irmão, o também artista Diego). Essas peças históricas e retratos do artista pintados por seu pai fazem parte da retrospectiva, tão abrangente que reúne quase 300 obras produzidas pelo escultor em mais de meio século de carreira. Alberto Giacometti: Coleção da Fondation Alberto et Annette Giacometti, Paris, que depois seguirá para o MAM do Rio (de 17/7 a 16/9) e para a Fundación Proa de Buenos Aires, adota um percurso cronológico para apresentar todos os caminhos engendrados em décadas pelo artista, suas experimentações, jogos de escalas (do monumental para a miniatura) e as influências (a arte primitiva da África e Oceania) desse que é considerado um dos principais artistas do século 20. Nascido em Borgonovo, Suíça, foram as montanhas de sua terra natal - vistas do ateliê de seu pai - que ele registrou inicialmente em suas telas. Em 1922, o artista fixou residência em Paris para estudar na Académie de la Grande Chaumière, tendo o escultor Antoine Bourdelle como mestre. Desde então, a França foi sua morada - seu ateliê sempre foi o mesmo - e raramente ele saiu do país (nunca veio à América do Sul, apesar de ter vários colecionadores de sua obra na Argentina e ter participado de duas Bienais de São Paulo, em 1951 e 1965).

As primeiras salas da mostra exibem o embrião de sua trajetória, quando a arte africana representa, para ele, uma "dimensão mágica", diz Véronique. Mulher-Colher e o Casal são obras emblemáticas, expostas no Salon de Tuilleries em 1927, e marcadas pelo cubismo. Já as figuras pintadas (durante toda a carreira), também estão sempre de frente, esquadrinhadas em redomas (como suas gaiolas posteriores) e feitas com uma paleta sóbria, em que predomina o cinza (Giacometti desconfiava da sedução das cores, afirma a curadora).

Outras obras que se destacam são as da década de 1930, quando Giacometti esteve ligado ao grupo dos surrealistas, peças caracterizadas pela escala diminuta (a concentração total da figura) ou pela monumentalidade (que tem seu ponto alto no Octógono do museu, onde estarão três grandes exemplares da série O Homem que Caminha).

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