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Olhar de dentro

Sentir a mão de uma pessoa é uma fonte de conhecimento, uma lição de sensibilidade

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2017 | 02h00

“São tantas coisas pra gente ver”, disse minha amiga, sentada diante de mim. 

A mão direita cobria a cabeça de uma gata, cuja pelagem amarela lembrava a do Leon. 

“Ver e sentir”, acrescentou minha amiga.

Ainda trabalha?

“Ainda... Pego o ônibus, depois o metrô, às vezes me atraso... Faço quase tudo sozinha. Algumas pessoas me ajudam, outras me empurram, alguém me xinga ou zomba de mim. Na minha infância, o mundo já era violento e atroz. Sempre foi. Mas as pessoas não eram tão apressadas, tinham mais tempo para ouvir, pensar... Depois do acidente, fiquei angustiada, perdida.... Tive de reaprender tudo: ler, ouvir, ver o mundo de outra maneira. Ver é um exagero ou uma metáfora. 

Aprendi a sentir... A lentidão domou minha angústia e eu agucei meus sentimentos. Agora, os sonhos esclarecem a alegria e o horror... Quase tudo se tornou sensorial: as palavras e as melodias que escuto, as imagens sonhadas, os passos desta gatinha, a Nur... Quando ela fica no meu colo, acaricio a cabeça e o pescoço desta gata querida... Sei que olha para mim e dá uma piscada, como o fazem os felinos manhosos, como fazia o gato da minha infância, um bichano maior, bem mais encorpado que a Nur. Ou eu era muito pequena e via tudo ampliado? Não sei. A infância se distancia e parece outra vida, uma história a ser inventada... Posso reconhecer as flores que vi no passado... Agora são invisíveis, mas o cheiro de cada flor é inconfundível. Uma flor, uma voz, a mão de alguém. Outro dia ouvi Wonderful e me emocionei com a voz de João Gilberto. Por onde ele anda? Teria ouvido umas 10, 20 vezes essa canção, mas fui interrompido pela gritaria dos vizinhos, um casal de pombinhos... Só que não soltam arrulhos apaixonados, são feras que urram. Os dois batem boca com palavras torpes, sabem que se odeiam, mas não querem ou não conseguem se separar. Talvez eles vivam juntos para cultivar o ódio, mais que o amor? Vá entender! Numa tarde destas, cumprimentei o rapaz e senti firmeza no aperto de mãos. Mas era uma firmeza sem sentimento, sem calor, sem tato. No trabalho, quando paro para tomar café, as pessoas vêm falar comigo e apertam minha mão direita. Esse contato, breve ou prolongado, me diz muita coisa. Sentir os dedos e a mão de uma pessoa invisível é uma fonte de conhecimento, uma lição de sensibilidade. Sentir os outros na escuridão... Mãos suadas de medo ou ânsia... Mãos serenas, que expressam afeição. Ou ásperas, cansadas e sofridas pelo peso do trabalho. Mãos delicadas de cetim, que fazem sonhar. Neste desfile de mãos, senti o ardor dos apaixonados, a ira dos intolerantes, a aflição dos tímidos, o sorriso dos compassivos. Percebi o grande vazio dos indiferentes. E aí me lembrei do poema norte-americano que você leu para mim na última visita: “Miséria é não ter nada no coração...”. 

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