Pascal Perich/AE
Pascal Perich/AE

Olhar a partir da América

Atração do evento, Jonathan Franzen fala de seus livros e dos impasses da escrita

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo,

29 de junho de 2012 | 20h22

A clamado como um dos grandes nomes da atual literatura norte-americana, Jonathan Franzen vem para a Flip com a lição de casa feita: em sua leitura, ele incluiu diversos autores brasileiros e não apenas os do cânone nacional. “Li muito Machado de Assis e Jorge Amado, nomes que me disseram imprescindíveis”, disse em entrevista ao Sabático, falando por telefone, de sua residência, em Nova York. “Mas recentemente tive o prazer de conhecer obras contemporâneas, que me impressionaram pela qualidade e que deveriam mudar para melhor o conceito que se tem nos Estados Unidos sobre a literatura latina, em especial a brasileira. É preciso que todos saibam que a era do realismo mágico já passou.”

Sua lista é específica e apresenta livros com um ponto em comum: a pesquisa do passado. “Eu me refiro a Chico Buarque e seu Budapeste, a Milton Hatoum e o realismo fascinante de sua obra, e também a Bernardo Carvalho e seu Nove Noites”, observa. “Espero conhecer novos nomes quando estiver aí, pois estou maravilhado com o estilo inovador com que escrevem os brasileiros, especialmente quando tratam do passado. Na verdade, acredito que o momento atual é um dos melhores para a literatura latino-americana - descobri alguns autores colombianos e percebo lá o mesmo fenômeno que ocorre no Brasil.”

Autor de As Correções (2001) e especialmente de Liberdade, obra que, em 2010, lhe garantiu o título de “o grande romancista americano” conferido pela revista Time (que o destacou em uma de suas capas), Franzen chega ao País ancorado por dois novos livros traduzidos, Tremor (romance) e Como Ficar Sozinho (artigos), ambos, como toda sua obra, publicados aqui pela Companhia das Letras.

Como Ficar Sozinho é uma coletânea de textos pinçados dos livros How To Be Alone (2003) e Farther Away (2012), que tratam de temas diversos como suicídio, solidão, sistema penal americano mas, sobretudo, literatura, terreno no qual Franzen percorre com mais segurança. Ali estão reunidos artigos argutos sobre contemporâneos como David Foster Wallace e Alice Munro, e também de clássicos do naipe de Goethe, Kafka e Proust - em todos, o articulista busca estabelecer conexões entre o cotidiano daqueles autores e o mundo ficcional criado por eles.

Conhecido por considerar a escrita de um romance como um ato humanista (“Por conta disso, cada frase deve ser pesquisada até seu âmago”, observa. “Só assim, o autor poderá dizer que ela está pronta”), Jonathan Franzen ironiza um fato que ele mesmo protagonizou. Seu romance As Correções chegou às livrarias uma semana antes dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, o que diminuiu a atenção das suas entrevistas, uma vez que ele tratava de “frivolidades” em um momento tão impactante na história americana. Pouco menos de dez anos depois, a obra marcada por fortes relações filiais se tornou referência. “Foram situações muito distintas, que reforçam a importância que cada livro tem em si mesmo”, comenta o escritor, cuja motivação para a escrita surge a partir do instante em que ele se coloca pessoalmente em situação de risco.

Para tanto, Franzen se fecha completamente na sua missão, desconectando-se da internet quando escreve, mantendo contato apenas com a obra que está por nascer. Por conta disso, ele foi questionado sobre sua relação com a tecnologia, o que provocou reações polêmicas - e engraçadas. “Por mais que os capitalistas odeiem o livro impresso, eu não o troco por um eletrônico. Afinal, posso derrubar água nele e, mesmo assim, continuar com a leitura por até dez anos sem precisar trocar o modelo de sustentação.”

Franzen apela para tradicionalismos ao defender sua tese. “É possível imaginar um católico carregando sua Bíblia que não a edição em papel? E um muçulmano com o Alcorão, você acreditaria ver algum indo para a mesquita com um e-book? Acredito que, para leitores sérios, um sentido de permanência sempre foi parte da experiência. Tudo o mais na vida é fluido, mas aqui é o texto que não muda.”

Como garante não praticar a futurologia (“não tenho bola de cristal”), Jonathan Franzen não está certo da existência de aliados permanentes a essa ideia. “Daqui a 50 anos haverá ainda leitores que pensam assim? Quem ainda tem fome por algo permanente e imutável?”, questiona. “Temo que o mundo poderá enfrentar dificuldades em seu funcionamento caso não persista certos tipos de permanência como essa, pois esse tipo de contingência radical não é compatível com um sistema responsável de justiça.”

Daí ele garantir que seu processo de escrita é responsável e, ao contrário de outro autores, não se sentir confortável enquanto trabalha. “Somente me tranquilizo quando consigo solucionar um problema que há meses ou anos vem me incomodando”, explica. “Foi o que aconteceu com Liberdade, cujo processo foi cercado por inúmeras dúvidas e só consegui realmente bater palmas de emoção quando resolvi as mais complicadas.”

Foi difícil, de fato, encontrar o fio da meada - Franzen conta que era perseguido pela voz da mãe da trama de Liberdade, Patty. Foram anos com aquela mulher martelando sua cabeça até que a história começasse a levantar do chão. Como essas coisas acontecem? “Não sei dizer. Talvez de uma privação sensorial: baixando o volume da criação até que, em algum ponto entre zero e um, aquele fio de voz indique o caminho. Infelizmente, vivemos hoje acostumados ao ruído cultural que é despejado no volume máximo, que nos incita apenas a perseguir as coisas que estão acontecendo. Daí a surpresa quando conseguimos ouvir uma voz diferente, redentora.”

Apesar de a crítica especializada rotular As Correções e Liberdade como crônicas familiares, Franzen discorda. “É fácil simplesmente tachar, mas não posso aceitar isso pois, a partir desse ponto de vista, crônicas familiares seriam, então, quase todas obras já escritas”, argumenta. “Família é algo imutável: você pode cobrir seu corpo de tatuagens e botar brincos enormes nas orelhas, mas continuará com os mesmos pais e irmãos, e a mesma história pessoal. Esse mundo imensamente midiático, em que se oferece a ilusão da liberdade radical de se autoinventar, é falso. Assim, não posso fugir desse tema.”

De fato, em Tremor, seu segundo romance, publicado originalmente em 1992, Franzen trata de temas que lhe seriam caros na continuidade da obra, como a subserviência dos governos às grandes corporações, a degradação ambiental, a fragilidade do debate público na mídia e, principalmente, as dificuldades de se viver em sociedade e em família. Em sua essência, Tremor questiona a existência ou não do romance social, tema de um artigo que Franzen publicaria anos depois em que apontava o declínio da importância da ficção de qualidade. Questão que, para ele, continua viva.

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