Olhando mais de perto vê-se um filme político, sim senhor

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

16 de março de 2012 | 03h12

Causou um certo espanto no Festival de Veneza quando o diretor de Shame, o britânico Steve McQueen (homônimo do ator americano, morto em 1980) declarou que seu filme era político. É preciso olhar de perto tanto o filme como a declaração para perceber esse aspecto e concordar com o diretor.

Em aparência, a história pertence inteiramente ao âmbito da subjetividade, sem nada, nela, que faça adivinhar seu caráter de crítica social. O personagem principal é Brandon Sullivan (Michael Fassbender), um executivo irlandês que trabalha em Nova York. Brandon é viciado em sexo. Apanha uma garota atrás da outra, das disponíveis às profissionais. Se não tem ninguém, masturba-se e, numa noite, tenta uma experiência numa sauna gay.

Além dos problemas com seu priapismo, Brandon tem também uma irmã pouco equilibrada, Sissy (Carey Mulligan), que pede para morar com ele durante algum tempo. Será um belo e fraterno compartilhamento de neuroses. Sissy é uma cantora da noite, e tão sexualmente dependente quanto o irmão.

O filme acompanha a trajetória de Brandon por uma Nova York noturna, cheia de atrações e oportunidades. A irmã Sissy é carente e promíscua. Há no ar um clima modernoso e um tanto impessoal na maneira como McQueen filma a cidade. Nessa Nova York pós-moderna, seus personagens se debatem sobre si mesmos sem que saibamos grande coisa do seu passado. Há uma alusão discreta de que a família veio da Irlanda e criou os filhos com dificuldades. Nada além disso, nada de revelador ou particularmente traumatizante. Boa opção, porque assim o diretor evita a tentação psicologizante de explicar o presente pelo passado, de forma mecânica, numa relação causa e efeito artificial, como com muita frequência se vê no cinema. McQueen procura ser mais dialético, o que significa ter mais atenção às contradições dos personagens do que às motivações de infância e meio social.

Também funciona bem o registro quase documental da Nova York noturna, em uma imersão no bas-fond chique da cidade. Claro, o cenário poderia ser qualquer outro, qualquer grande cidade do mundo ocidental. Poderia ser, mas nenhuma delas talvez simbolizasse o que McQueen queria dizer. Se existe um centro do mundo desenvolvido, ele fica em Nova York. A cidade encarna, como nenhuma outra, esse mundo, como diz o diretor em suas entrevistas, das "possibilidades ilimitadas". Essa é a ideia de base das metrópoles em geral, e da maior das metrópoles em particular. Nela, você tem de tudo. Você pode se expandir e a seu ego em qualquer direção e de maneira incontida. Essa fantasia da totalidade parece ser o mal de Brandon, muito mais do que sua dependência do sexo, o seu priapismo militante. Este seria, digamos, apenas um fenômeno secundário, um pequeno sobressalto diante dessa vertigem original.

A ideia de base era essa mesma, e se traduz na linguagem do filme. Submeter um personagem fraco (embora na pele de um macho alfa) a todas as tentações possíveis, até que, exaurido, ele constate a sua derrota. Brandon enfrenta esse paradoxo: diante da possibilidade (ilusória) da liberdade absoluta, ele acaba por entender que não tem liberdade nenhuma.

Nesse ponto se entende a argumentação de McQueen, de que teria feito um filme político. Pela possibilidade de ter tudo, de adquirir tudo, do último gadget ao corpo de quem bem entende, tudo e todos, no fundo, perdem seu valor. Nessa relação histérica com a vida, quanto mais o personagem se satisfaz mais insatisfeito fica. É o grande paradoxo da sociedade desenvolvida, o seu grande vazio, afinal de contas. McQueen tem razão. Visto de perto, Shame é filme político, sim senhor.

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