Imagem Ignácio de Loyola Brandão
Colunista
Ignácio de Loyola Brandão
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Olhando a varanda vazia de mim

Me voltaram instantes que você, minha amiga Joaquina, deve ter vivido em sua terra, Oriente

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

03 Agosto 2018 | 02h00

Minha amiga Joaquina, que me lê aí em Oriente, palavra mágica na minha infância e juventude, quando eu passava férias em Marília e Vera Cruz. Oriente misterioso, perfumes do Oriente, alcovas de cetim, um riso, um beijo ardente, diziam os tangos da época. Escrevo no dia em que faço 82 anos. Quis morrer aos 24 como James Dean num Porsche veloz. Bobagem, fiquei e me diverti bem, até hoje não sei dirigir. Vim até aqui e me voltaram instantes que você, Joaquina, em sua terra, deve ter vivido, se bem que os aniversários das meninas deviam ser diferentes. Assim que saía na rua, a molecada corria, pisava no sapato novo a gritava: “Feliz aniversário!”.

Mal ouvia isso, eu me mandava. Eu e quem fazia aniversário. Sabíamos o que viria. Cascudos, pescoções e sardinhas. Sardinha era a maneira de dar uma chicotada na bunda com dois dedos que estalavam e doíam. Sem esquecer a paulistinha (por que o nome?), aquela joelhada ardida na coxa, usual em futebol e que bem dada o juiz não repara. Assim eram as comemorações entre nós, pobres e remediados. Abraços e beijos? Homem não dava abraço em homem. A palavra não existia, mas quem reclama de bullying hoje não se lembra ou nunca sofreu na infância. Pena, não conheceu a vida.

No aniversário, o prazer do bullying parecia especial. Havia quem ficava escondido atrás de uma árvore e, quando você passava, atirava uma porção de farinha na sua boca, sufocando, gritando feliz aniversário e todos riam. Havia quem jogava areia no olho. Meu irmão Luiz Gonzaga levou uma dessas e sofreu anos da vista direita. Muito normal também era apanhar ovo podre e, quando o aniversariante passava, o sádico jogava. Não tem coisa pior do que o fedor de ovo podre. Tinha um espanhol chamado Roque, que vendia ovos de porta em porta e recebia encomendas especiais, ovo podre para tais sacanagens, por todos admirada. Nunca soube quem fedia mais, se o Roque, que nunca tomava banho, ou o ovo.

Falando em ovo podre, certa vez, em 1966, eu tinha 30 anos e fui a Barretos assistir a um jogo da Ferroviária contra o Barretos, os dois na Primeira Divisão. A AFE tinha caído e brigava pelo retorno à Especial. Estávamos quietinhos na arquibancada, não podíamos dar um pio, a rivalidade era feroz. A Ferroviária entrou em campo por um túnel que, na verdade, era um aramado que não protegia ninguém. 

Os jogadores iam entrando e levando dúzias de ovos podres em cima. O juiz não permitia voltar e se trocar. Era tudo arranjado. Assistimos ao jogo mais nojento que já vi, digo senti. E nós calados. Ainda por cima, a AFE perdeu. Na saída, fomos em busca do carro de meu pai, um fusca azul. Orgulho da família. Papai aprendeu a dirigir aos 60 anos. Naquele tempo era “velho”. Tínhamos estacionado longe por precaução. De nada adiantou. Os pneus estavam furados e havia ovos podres por toda a lataria. A rua? Deserta. Mas ouvíamos as gargalhadas atrás das janelas e muros.

Nunca soube a razão, mas dona Maria do Rosário, minha mãe, jamais fez uma festinha de aniversário na minha infância. Eu não entendia, perguntava, vai ter festa? Ela dizia, não, este ano não, estamos em dificuldades, a casa está hipotecada. Eu não tinha a mínima ideia do que era hipoteca, mas temia. Perguntava aos meus amigos: seu pai tem hipoteca? Eles nem sabiam o que era. 

Deixei muitas vezes de ser convidado para festas, uma vez que eu nunca convidava ninguém para a minha. O máximo que minha mãe permitia era mandar a Sebastiana Gurgel, boleira de mão cheia, fazer um bolo Majestoso. Delicioso, como o nome dizia. Poucos sabem, mas Sebastiana ficou na história de Araraquara não somente pela fama de seus bolos, mas também pelo seu filho, Amaral Gurgel, radionovelista dos maiores, um Silvio de Abreu, Gilberto Braga ou Aguinaldo Silva da Rádio Nacional, nos anos 40 e 50.

Por outro lado, meu pai, no fim do dia de meu aniversário me trazia o quê? Um livro. E ele sabia escolher. Aos 8 anos, foi Robinson Crusoe, inesquecível. Aos 9, A Ilha do Tesouro. Minha madrinha, tia Ignácia, aos 10 anos, me deu Alice no País das Maravilhas, seguido, aos 11 anos, por Alice no País dos Espelhos. E minha cabeça mudou. Imaginação era aquilo, liberdade, doideira. E assim continua até hoje. 82 anos. Não sei se é hora de ir para a varanda e olhar a vida correr ou se é hora de passar pela calçada e ver a varanda vazia de mim e me alegrar pensando: devo ter ido falar minhas coisinhas em algum lugar.

Mais conteúdo sobre:
bullying

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.