Olha como sou feliz...

Me benzo por ter saído do Face, Instagram e ser vago nas informações para cadastros

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2019 | 03h00

Camila, que não usa maiúsculas e raramente acentua, postou no Twitter: “E eu que tava chorando, me olhei no espelho, me achei gostosa e tirei uma foto”. Fiquei uma semana intrigado em busca do significado do desabafo. 

Na foto, fazia pose e biquinho. Bico de selfie. Costuma postar trivialidades: “Estou com sono”; “queria estar com o menino q eu gosto tomando uma cervejinha na piscina nesse calor”; “to so existindo hoje”. Horas antes, tuitara: “A partir de hoje nao falo mais NADA da minha vida”. Continuou o dia falando de si.

Tem 2.500 seguidores. É são-paulina de Brasília. Seu codinome: “Princesa”. Não sei precisar a idade. Tem mais de 20 anos. Fiquei em dúvida se poderia citar o nome completo. Ou se seria melhor preservá-la. Mas o quê... 

Sua conta é aberta, suas fotos agora se tornam visíveis no mundo todo, seus pensamentos são compartilhados, ela aceita que sejam repartidos; a maioria deles, com palavrões. Fala muito em brigar e fazer as pazes com amigas, em brigar e fazer as pazes com namorados. 

Na frase intrigante, há quatro ações: chorar, olhar-se no espelho, considerar-se gostosa e tirar foto. Tirar uma foto fez bem? Ou se considerar gostosa? Parou de chorar? Considerou-se gostosa pois chorara? Ou mostrar aos 500 milhões de usuários do Twitter uma foto dela se olhando no espelho depois de chorar é que a fez ficar bem? 

No perfil, informa seu endereço do Instagram. É também aberto. Nele, 7.800 seguidores. Numa porcentagem grande de fotos, está de biquíni. Secura do Planalto Central. Quase sempre sozinha, seduzindo com um olhar direto para a câmera. Acha-se linda, com certeza. E é.

Sem ter o que fazer, investiguei-a. Em cinco minutos, descobri seu nome e sobrenome, e que é recepcionista de uma academia de TopFit do Distrito Federal, que cobra de R$ 129 (Plano Basic) a R$ 169 (Gold). Acabara de chegar ao Plano Youth, para jovens de 18 a 24 anos, a R$ 109. Camila os recepciona com um “may I help you”?

Charles é o “fundador” da modalidade, da academia, professor, e madruga: começa a atender às 6h30. Na fanpage do Face, tem todos os dados. Assim como na página de Camila, também aberta, que contém muitos detalhes do trabalho e vida pessoal. 

Ela está solteira. Trabalha desde 2013 na academia. Em 2005, aprendeu a nadar. Frequentou as matinês do Sev7Teen. Curte o restaurante Coco Bambu Brasília, de frutos do mar. Gostou do filme A Culpa É das Estrelas e dos programas de TV Sobrenatural, Superstar, entre outros. Não indica nenhum livro. Não há sinais de que os lê.

As fotos dela no Face são mais “comportadas” do que as do Insta. Mas também na grande maioria é ela sozinha, seduzindo as lentes. Descubro por ela que Charles virou Coronel Charles nas eleições de 2018, foi candidato a deputado federal pelo Pros, apoiou Bolsonaro, teve 11.114 votos, mas não foi eleito. Ela apoiou o chefinho.

Por que decidi stalkeá-la? Foi uma escolha aleatória, que me lembrou um conto do livro O Sol na Cabeça, de Geovani Martins, em que um estudante da Rocinha passa a seguir por dias sem motivo aparente um executivo do Leblon, apenas para seguir ou amedrontar alguém; ou ver como vivia e entender os motivos de tanta desigualdade entre vizinhos.

Já ficou nítido que Camila mescla perigosamente momentos de euforia e depressão. Porque talvez nunca chegue à foto perfeita, ao momento perfeito, à calma de uma relação estável, ou nunca ganhará likes suficientes. A necessidade dos likes, da aprovação, é uma epidemia mundial, preocupante, e sinal de solidão e baixa autoestima. Não se vê fotos da família ou de rituais familiares. Virtualmente está cercada de gente, mas na real não tem ninguém.

Observei como, numa ingenuidade contemporânea, ela se expõe e entrega dados sobre si mesma. Não a hackeei criminosamente. Apenas com o mouse vi em meia hora o que qualquer um pode ver: sua intimidade. 

Me benzo por ter saído do Face, Instagram e ser vago nas informações que passo em cadastros online, às vezes mentiroso. Primeiro efeito: despencou a necessidade de me fotografar ou fotografar aquilo que vivo, como estou, onde estou, com quem e por quê. Apenas estou.

Esqueço que celular é também uma câmera. Por sinal, me vejo em eventos sem tirar uma foto sequer. Como banalizamos a fotografia... Como era bom quando no Brasil era caro. Tínhamos que juntar toda a família para a foto do Natal. 

Na meia hora em que a observei, meu filho de 3 anos via Peppa Pig ao lado. No universo da porquinha rosa, uma cidadezinha de campo inglesa, quase não se usa celular. As pessoas são boas, ajudam-se, todos trabalham e vivem dignamente, o trabalho é honrado, ninguém tem mais que outrem ou é explorado. Todos vivem em família e têm amigos. Olho meu filho e me pergunto o que será dele no futuro. 

Inventamos a internet para conectar pessoas, democratizar a informação, diminuir distâncias, facilitar a comunicação e os serviços. Steve Job pensou num celular que trouxesse o bem, a alegria, a união, que mudasse o mundo para melhor. O problema é que, operando-os, estamos nós, com nossos sete pecados.

Tenho dó de quem não viveu num mundo sem internet e celular, não viveu a experiência de não estar plugado numa rede sem limites, de mandar telegramas, cartas, ter tempo para contemplar o nada, de ter amigos que não sejam algoritmos, binários, fantasiosos. Tem volta?

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