Ok, pode duvidar. Mas que eles existem, existem

"É como ver um filme de terror na parte em que o monstro surge pela primeira vez", já foi dito sobre a experiência de ouvir a música da banda americana Salem, um dos novos fenômenos a tomar forma no disforme underground do rock. Do rock e seus gêneros adjacentes.

, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2010 | 00h00

"Seria a trilha sonora perfeita para um filme de horror psicológico e perturbado como Bruxa de Blair", fala-se sobre o impacto de escutar o esquisito King Night, o álbum de estreia deste trio de Michigan, lançado no final de setembro nos EUA, em meados de outubro na Europa (em vinil) e já listado no top 10 de "disco do ano" de revistas especializadas como a britânica New Musical Express.

O único porém na hora de definir desta forma o Salem, seu som e o burburinho que ela está fazendo nesse surgimento de uma nova cena musical é: sim parece a trilha ideal para o Bruxa de Blair, desde que, para quem ouve a banda pela primeira vez, a impressão é a de estar DENTRO do filme, correndo na floresta de uma bruxa que nunca aparece, mas que sabemos estar lá.

Atestado semivivo de que a nova música está clinicamente doente, o Salem é fruto podre de um fim hipotético do rock, da música eletrônica e do rap. E, do que restou desses gêneros, o trio teria criado um ritmo propositadamente desacelerado, com vozes masculinas modificadas para o grave, mantras angelicais femininos sobrevoando as canções e nas letras temas funéreos, deprês, muitos palavrões, muita desesperança.

Esse caldo sinistro dá nomes tétricos a uma cena ainda não muito bem definida, que dá voz e cara a uma série de bandas de lugares diferentes, "amarrados" numa parecida estética fim de século neste começo de século. O Salem é uma espécie de pós-tudo: pós-emo, pós eletrônico, pós-indie, pós-hip hop, pós-dubstep.

Essa onda nova capitaneada pelo Salem tem batismos bizarros para todos os gostos e para todos os becos e garagens e quartos de casa onde se faça nova música: witch house, gueto gótico, drag ("arrastado"), spookycore, ill wave ("onda doente").

É como se os adoradores da estética emo, influenciados pela onda pop que cultua vampiros, tivessem crescido, cansados de chorumelas musicais e partido para algo mais sério, adulto.

Depois de bastante comentado e recomendado neste ano no festival de novas tendências South by Southwest (Sxsw), no Texas, em março, e considerado o show do festival no CMJ, em Nova York, em outubro, o Salem (pronuncia-se "sei-lam") partiu para a conquista de Londres. Para começar, o trio, que é de Traverse City (cidadezinha esquisita por si só perto de Chicago), se apresentou no final de novembro em uma igreja do século 17 em Shoreditch, o atual bairro do agito da capital inglesa. Pouca gente viu, mas muito está se falando. Alguns shows pelo Reino Unido depois, o Salem foi excursionar pela Europa, seguido de perto por uma "zombieland" de fãs que figuram entre góticos, clubbers, rappers...

Fora do palco e do estúdio, as "pessoas físicas" que integram o Salem têm uma história tão esquisita quanto sua música. O que o trio diz em entrevistas, principalmente o louraço líder John Holland, é que todos os três integrantes do Salem (ele, Jack Donoghue e a garota Heather Marlatt) são bissexuais, às vezes namoram entre si (um com outro e ainda os três ao mesmo tempo) e já se prostituíram para levantar um dinheiro para comprar drogas.

Tirando as bizarrices reais ou virtuais, 2011 promete ser um ano de afirmação para o Salem. Eles voltam aclamados ao Reino Unido no começo do ano para uma turnê maior, encaram uma forte agenda de shows nos EUA e devem frequentar festivais importantes. O festival de novas tendências Sonar, realizado e internacionalizado desde Barcelona, na Espanha, anunciou nesta semana que o Salem é sua primeira atração para a edição de 2011. Isso não é pouca coisa. A banda ainda é cogitada para os megafestivais de Coachella (EUA) e Glastonbury (Inglaterra).

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