Ok, boomers

Como uma sociedade que se uniu para combater injustiças deu em tanto ódio e egoísmo?

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2020 | 03h00

Foi decretada uma guerra fria no mundo corporativo: a geração boomer, em cargos de chefia, contra as gerações Y, Z e de millennials, os colaboradores e funcionários. 

Uma nasceu no mundo analógico e viu ou construiu a era digital, acha os mais jovens infantilizados e mimados que, apesar da quantidade enorme de informações em mãos, não sabem tomar decisões. 

Boomers passaram pelos movimentos beat, hippie, disco, punk, pós-punk, yuppie, grunge, lutaram contra ditaduras, segregação racial, pelo feminismo, orgulho LGBT e pelos direitos individuais. 

Os mais jovens herdaram. Até ouviram falar de lado A e lado B, mas não viram um disco riscado empacar, nem sabem limpar agulha de vitrola, cabeçote de gravador com cotonete, enrolar fita, o que significa K7 60, 90, 120, a diferença entre VHS e Beta, disquete, conexão discada, tubo de TV, processador 286, 386, 486, pais e avós do Pentium, talvez conheça o DOS, mas configurar o kbbr para acentuar?

Os boomers nasceram na era de vestir camisa da empresa em que se trabalha. Os outros são as vítimas do mundo sem bem-estar social, sindicatos, greves trabalhistas: o da precarização. Não criam raízes, têm poucas relações estáveis. A socialização se faz por aplicativos. Confundem isolamento físico com isolamento social. O amor, assim como o comprometimento, é líquido.

Porém nós, boomers, nascidos depois de duas grandes guerras, que lutamos por igualdade de gênero, raça, apreciamos a democracia, conquistamos a Lua, embaralhamos a revolução industrial com a tecnológica, exigimos o fim de ameaças nucleares, respeito às diferenças e ao meio ambiente, lhes entregamos um mundo contaminado. Literalmente.

O que aconteceu? Como a construção de uma sociedade altruísta, com empatia, que se uniu para combater injustiças, opressão, deu em tanto ódio, arrogância, intolerância, egoísmo e desovou a descrença na ciência, corrupção de valores e atores políticos que emergiram da discórdia, para nos dividir em polos combatidos e enterrados?

O sarcasmo com que os jovens expressam “ok, boomer” faz sentido. Os mais velhos ordenam, ensinam. Os mais jovens se perguntam ironicamente se devem obedecer a quem deixou de legado um mundo em frangalhos. 

Numa das séries mais caras da Netflix, The Politician, estabelece-se o conflito entre boomers e os mais jovens. No episódio O Eleitor, enquanto uma mãe votará na veterana candidata democrata ao Senado, a filha votará no jovem e ambicioso ambientalista, sem experiência alguma.

A mãe fala: “Mas você tem liberdade, direito ao aborto, pode se expressar sem censura, graças à minha geração”. 

A filha responde: “De que adiantou tudo isso, se vamos morrer alagados numa catástrofe ambiental?”.

A raiva com que a adolescente Greta Thunberg fala sobre o futuro faz sentido: “We will never forgive you, all you can talk about is Money, fairytales of economic growth, how dare you!” (Nunca os perdoaremos, tudo o que vocês conseguem falar é de dinheiro e fantasiar crescimento econômico, como se atrevem!). 

Nosso projeto de mundo melhor e mais limpo fracassou. A ganância por produtos baratos destruiu relações trabalhistas estáveis, trouxe miséria, desigualdade. Os aplicativos que nasceram para trazer facilidade e baratear custos enriqueceram pouquíssimos, geraram disparidade social, um Estado ausente, uma completa anarquia dos serviços. Desumanizou-nos.

Entupiram os oceanos de plástico, derreteram geleiras. A água limpa é escassa. O calor da Sibéria é assustador. Arrogância de alguns governos contra o poder de um vírus causa morte. O vai e volta de decisões causa angústia, depressão. Nunca se bebeu tanto. 

No filme Contato (ideia de Carl Sagan), uma astrônoma descobre o sinal extraterrestre transmitido, que começa com a imagem de Hitler discursando. A secretária de Estado reclama: “Cinquenta milhões morreram para combater esse desgraçado, e é esta imagem que eles nos mostram?!”. 

Esclarece-se. Sinais de rádio e TV viajam pelo espaço. A primeira grande transmissão televisiva realizada na Terra foi Hitler na abertura dos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Surpresa. Milhões morreram, e suas ideias voltaram, assim como o culto a sua imagem.

A luta contra o racismo parecia uma unanimidade. Que nada. Símbolos, lemas, expressões e bandeiras nazistas ressurgem das tumbas. Um aluno de uma escola da elite esclarecida de São Paulo passou a fazer a saudação nazista no recreio. Dois caras foram flagrados com suástica no braço, um garoto em Curitiba, outro em Unaí (MG). 

Bandeira do movimento racista ucraniano é desfraldada em manifestações pró-Bolsonaro, um admirador do autoritarismo. 

Tem gente (branca) nos EUA apagando inscrições BLACK LIVES MATTER das paredes. Tem casal branco apontando rifle automático para manifestantes pacíficos. Tem carreata de carrinhos de golfe com brancos bradando: “White, power!” que, pior, o presidente americano retuitou.

Lá, a morte por overdose de drogas aumentou 42% em maio, segundo o Pew Research Center, que fornece informações sobre atitudes e tendências que moldam o mundo: 71% dos entrevistados estão com raiva, 66% com medo. 

O Baixo Leblon da boemia, de Cazuza, Caetano, dos poetas marginais, da classe teatral, virou território de negacionistas dourados que desrespeitam as regras mais simples de convívio social, humilham servidores públicos, ignoram leis.

O mundo pós-pandemia será mais desigual do que antes. A sociedade tolerará até quando a insana concentração de renda? A loucura tem um campo fértil para florescer. E os jovens terão todo direito de perguntar: “Tem certeza, boomer?”.

 

Tudo o que sabemos sobre:
Marcelo Rubens Paiva

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.