Oiticica mistura tons entre arte e natureza

Vinte e um anos depois de sua morte, o artista plástico Hélio Oiticica começa a ter seus projetos realizados. Esse domingo, o Museu do Açude, situado na antiga casa de campo de um milionário carioca, em meio à floresta da Tijuca, inaugura a instalação Magic Square nº 5 - De Luxe, com direito a performance do poeta Wally Salomão e da cantora Adriana Calcanhoto. A obra, em concreto armado e acrílico, foi concebida no início dos anos 70 e faz parte de uma série de oito trabalhos projetados para espaços públicos.No exterior, Oiticica também desperta interesse. No próximo dia 30, quinta-feira, o Museu de Arte Moderna de Paris abre a exposição Da Adversidade de Vênus, com obras de artistas latino-americanos como Cildo Meireles, Alex Grippo e Arthur Barrio. "O título da mostra é o mesmo de um parangolé do Hélio e vamos levar vários penetráveis, entre eles, O Éden, uma instalação que cobre o chão de areia e usa diversos materiais", adianta o curador do Projeto Hélio Oiticica, César Oiticica, sobrinho do artista.Em setembro, o Wexner Center, de Ohio, apresenta a mostra Quase Cinema, com os trabalho multimídias do artista. A exposição já esteve em Cuba e deve viajar pelos Estados Unidos com o filme Agripina É Roma Manhatan, um curta em super-8 dirigido por Hélio em 1972, e outros títulos sobre ele ou com sua participação. Por enquanto, já estão selecionados Câncer de Gláuber Rocha, e H.O., de Ivan Setta. "Há cada vez mais interesse na obra dele no exterior, muito mais que aqui", ressalta César. "Mas com a verba obtida para montar esse penetrável do Museu do Açude, conseguiremos fazer também a exposição de Além do Espaço, nas imediações do Centro Hélio Oiticica, aqui no Rio."Segundo César, nessa mostra prevista para julho, finalmente os parangolés e outros penetráveis do artista vão ocupar o espaço para o qual foram concebidos e vistos pelo público que serviram de inspiração. "Não vai ser uma exposição convencional, dentro do centro, mas pessoas que vivem nas imediações, em situação de risco, vão receber uma ajuda de custo para vestir os parangolés", conta César.O Magic Square nº 5 - De Luxe não será montado exatamente como Oiticica planejou. A série foi projetada quando o artista vivia em Nova York e queria levar seus penetráveis para o Central Park. Não foi possível, mas ele detalhou toda a maquete, deixando até amostras das cores das placas de acrílico que cobrem parte da obra. Esse detalhe é fundamental porque a instalação é monumental, com 225 metros quadrados de área construída em um terreno pelo menos quatro vezes maior. O grande barato é ver a transformação das tonalidades à medida que a incidência da luz do sol muda."Hélio queria que essa obra interagisse com a natureza, que o mato tomasse conta", lembra César, que tinha 13 anos quando o tio morreu, em 1980. "Ele tem muitos projetos irrealizados, pois ia criando sem parar e mudava de idéia quando via a maquete pronta. A maioria deles é muito difícil de ser executada, tanto pela precisão e complexidade, quanto pelos custos."É o caso da série Magic Square. O que o Museu do Açude inaugura domingo, para fazer companhia a trabalhos de Iole de Freitas (Dora Maar na Piscina) e Ana Maria Maiolino (Aqui Estão), custou R$ 47 mil, vindos do Banco Safra, parceiro do Museu, por meio da Lei Rouanet, mais a tinta para colorir as placas de acrílico, criada pela indústria paulista Akzonobel, que teve de pesquisar muito até chegar à cor exata. "Com o dinheiro dessa montagem, conseguiremos alavancar a exposição no CHO", promete César. "Como as duas ficam em lugares distantes (na Praça Tiradentes, no centro do Rio, e no alto da Floresta da Tijuca, na zona norte), vamos ter condução para levar o público de um lugar ao outro."

Agencia Estado,

26 de maio de 2001 | 13h54

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.