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Oi, Ômicron...

Ômicron, você é a voz de uma consciência que devia ser coletiva. Não vem tripudiar, o recado está dado

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2021 | 03h00

Eu já estava experimentando panos, aprendendo passos e ensaiando uns sambas. Já tinha mapeado uns bloquinhos e preparado orações, unguentos e poções em benefício do meu próprio fígado.

Eu já estava no maior allah-la-ô quando você chegou. Eu estaria inteiro no meu próximo fevereiro, irmão.

Oi, Ômicron, puxa uma cadeira e ouve minha cantilena. Não posso falar pelos outros, mas estou aqui de peito aberto e máscara.

Sou um astronauta sonhando com um desfile de carnaval na Sibéria. 

Ômicron, precisei engolir o meu orgulho de folião. Devolvi o confete para o saco e recuei minha bateria. Você pediu para parar, putz, parei.

E estou aqui parado, estagnado, uma estátua em pose ridícula, com dois dedinhos apontados para o céu feito um gringo em êxtase.

Será que não tem carnaval no ano que vem?

E sobre o réveillon, Ômicron? Já melou, né? Tá certinho. Não dá pra confraternizar com você no pé. Ou melhor, no ar.

Queria estourar um espumante baratinho com uns amigos. Queria pular umas ondinhas e mandar um “já vai tarde” na fuça no ano velho. Mas você não deixa, você ainda quer ver mais deste fundo do poço, desta ladeira sem fim. 

Tenho, por baixo, uns dez abraços adiados. E um ou dois roteiros de viagem que eu sonho aproveitar o dia em que o dólar baixar.

Não me olha assim. Toma aqui meu álcool em gel. E me ouve mais um pouquinho.

Ômicron, você é aquele toque no ombro, a corrente no pé e o “psiu” que nos faz olhar para trás. E é preciso olhar para trás. E é preciso olhar para o mundo inteiro.

Ômicron, você é a voz de uma consciência que deveria ser coletiva. Você é aquele aviso nos advertindo para os perigos na próxima curva.

Vem jogar na nossa cara que a humanidade não aprendeu nada, meu velho. E que não adianta a vovó tomar a terceira dose se na África pouca gente sentiu a primeira picadinha no braço.

Nos ensine mais essa lição, mas sem nos machucar demais. Não sou ninguém para pedir, mas vem suave. Sei que desperdiçamos todas as outras chances, mas entenda o nosso lado. Não precisa tripudiar. O seu recado está dado.

Somos bufões com algum carisma. Somos anjos surdos. Somos a raspa do tacho na panela de barro da vida. 

Sai pra lá, sai de fininho, sai à francesa, sai de banda, sai sem “dar tchau” para mais ninguém. Não é por falta de adeus. Vai nessa, Ômicron, Ômicrão, Ômicão, Omicrinho... 


*Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observador da vida urbana

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