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Oh Nuno!

Dizem que não importa onde você esteja, sempre haverá bem perto alguém com esse nome

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2017 | 02h00

No Brasil há muitos, realmente muitos nomes. Não se trata meramente da diversidade de possibilidades, mas da liberdade criativa também. Eu, por exemplo, já fui professora do Edmário, da Marcicleide, do Rubergley, do Brendon Shelton, da Getulina, do Vériton Charles, da Craudete, da Tatiane Tassiele, do Ilton Valter, da Deucicleia, do Fauster Wilson, da Adelange, do Rovânio e do Ben Dequer Judá.

De fato, a total liberdade de escolha dos pais resulta nesse tipo de situação, digamos, delicada. Não sei bem qual é a sensação de ter um nome desses, mas sei bem qual é a sensação de encontrar dez nomes desse tipo numa mesma lista de chamada. É como ter que ler um voz alta um texto numa língua que você nunca estudou, trata-se de um verdadeiro desafio.

Mas confesso que fiquei um tanto quanto surpresa quando descobri que em Portugal existe uma lista taxativa dos nomes permitidos para registrar uma criança. Mesmo em relação à grafia, as regras são rígidas. Luís sim, Luiz não. Filipa sim, Felipa não, Alexandra sim, Alessandra não. A princípio, achei que essa era uma forma dura de restringir o direito dos pais de escolher o nome dos próprios filhos.

Contudo, não demorei para mudar de ideia. Porque me dei conta de que não se trata do direito de escolha dos pais, mas sim do direito do nascituro de ter um nome minimamente normal, tendo em vista que confiar no bom senso das pessoas é algo que não costuma dar muito certo. Talvez a gama de nomes pudesse ser um pouco mais flexível, mas parece-me que existir uma lista seja algo prudente.

Em que pesem as centenas de nomes permitidos, tenho a sensação de que com dez nomes femininos e dez nomes masculinos nós conseguimos abarcar cerca de 80% da população portuguesa. É algo que fica entre a falta de imaginação e o bom gosto, uma vez que se tratam de nomes bonitos. Ana, Maria, Joana, Inês, Rita, Margarida, Mariana, Francisca, Filipa e Catarina. João, José, Miguel, Francisco, Mário, Pedro, Diogo, Manuel, Tiago e... Nuno. Porque Nuno é uma questão à parte.

Foi numa mesa de bar que um amigo brasileiro discorreu acerca da teoria do “Oh Nuno!”, sobre a qual passo a tratar. Dizia meu amigo que em qualquer lugar de Portugal no qual se fosse, se você gritasse “Oh Nuno!”, haveria um Nuno para responder. De acordo com a teoria, não importa onde você esteja, sempre haverá um Nuno num raio máximo de dez metros.

Confesso que decidi testar a teoria. Na Faculdade de Direito, eu sabia que seria fácil, uma vez que eu mesma tive três professores chamados Nuno no mesmo semestre. Depois, tentei no supermercado. Depois, no ponto de ônibus. Na pastelaria. Na feira de orgânicos. No restaurante onde almoço durante a semana, quando esqueço a marmita. No centro comercial.

É realmente infalível. E a parte mais interessante é que quando o(s) Nuno(s) se viram(m) nem é preciso disfarçar que fui eu que chamei, pois eles me olham e logo pensam “não conheço esta miúda, ela deve estar a chamar outro Nuno”. Um amigo disse que testou a teoria com Miguel e Pedro e os resultados não foram satisfatórios. Acredito que isso dê margem a uma tese de sociologia.

Já fui apresentada a muitos Nunos. Nuno Almeida, Nuno Mendes, Nuno Dias, Nuno Toscano, Nuno Portela, Nuno Leite, Nuno Santos, Nuno Rebelo de Sousa, Nuno Piçarra, Nuno Martins, Nuno Cunha Rodrigues, Nuno Carrapatoso, Nuno Oliveira, Nuno Vale. Ainda não acabei minha tese de doutorado, mas já tenho Ph.D. em Nuno.

Não aconselho as pessoas a fazerem o teste do “Oh Nuno!” para evitar maiores incômodos aos simpáticos senhores que carregam este nome em seus documentos. Mas posso garantir que funciona. Caso um dia você precise de ajuda em Portugal, mais vale gritar “Oh Nuno!” do que “socorro”. Os Nunos costumam ser simpáticos e bastante prestativos.

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