Imagem Humberto Werneck
Colunista
Humberto Werneck
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Oh, Suzana!

Numa cidade como São Paulo, em sua irrefreável elefantíase urbana, não deve ser fácil dar nome a uma rua, praça ou avenida. Que outra explicação haveria para as placas onde lemos Rua Bem Simples, do Bem, da Aspereza ou da Sinceridade?

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S. Paulo

09 de junho de 2015 | 02h00

A essa lista poderia alguém acrescentar a Rua Suzana Castera, de cuja existência acabo de ficar sabendo. 

Quem diabos? Perdida no emaranhado do distrito de Anhanguera e batizada na administração Celso Pitta, essa via homenageia – leio no Guia de Ruas de São Paulo, do Arquivo Histórico municipal – uma atriz francesa que brilhou no Alcazar, do Rio de Janeiro, e que “muitas vezes ofereceu a renda de seus espetáculos para a alforria de escravos”.

Por motivos que não vêm ao caso, estou em condições de atestar que as informações estão corretas. Faltou acrescentar, porém, que além de dama de caridade Suzana Castera foi mulher-dama, simplesmente – e não qualquer uma: a mais notória cafetina do Rio de Janeiro no final do século 19 e começos do 20, dona de bordel escancaradamente frequentado por ilustres & lustrosas figuras do Império e da República. 

Não é pouco, convenhamos, e chega a ser injustiça não existir no Rio um mísero beco Suzana Castera. O mesmo se dá, aliás, em Belo Horizonte, onde nenhum logradouro público leva o nome de Olimpia Vasques Garcia, cafetina espanhola que foi na capital mineira o equivalente de Suzana no Rio de Janeiro. A injustiça, no seu caso, é ainda maior, pois Olimpia, ao morrer, deixou sua fortuna para a Prefeitura belo-horizontina.

Mas uma cafetina de cada vez. Para que você tenha uma ideia do quão poderosa era a tal Suzana, veja o que sobre ela escreveu Luís Edmundo em seu delicioso O Rio de Janeiro de meu tempo, ambientado na belle époque carioca: “Quando lhe morre a mãe, e, na igreja da Candelária, por sua alma diz-se missa, quem escreve estas linhas encontra o que de mais respeitável e importante existe então na política, na magistratura e em outras altas profissões do país, abraçando-a na sacristia”. Mais interessado em urnas não exatamente funerárias, o Senado lá esteve em peso, detalha o memorialista, a começar pelo presidente da casa, também vice-presidente da República, o pernambucano Francisco de Assis Rosa e Silva.

Não era só, acrescenta Gastão Cruls em Aparência do Rio de Janeiro: Suzana Castera desfrutava de reputação também transatlântica, agraciada que fora na França com a comenda do Mérito Agrícola, “pois que se aqui sempre hostilizara a folha de parreira, na sua terra era proprietária de grandes vinhedos”.

Muito à vontade também no terreno da virtude, madame Castera notabilizou-se na luta pela abolição da escravatura, tendo sido, escreve Monica Pimenta Veloso em Modernismo no Rio de Janeiro, “sócia de quase todos os centros de propaganda abolicionista”. Sua casa, lembra Luís Edmundo, “era uma espécie de Bastilha onde a autoridade não podia penetrar, sempre atulhada de pretos fugidos, por ela muitos deles depois alforriados”.

O cronista sergipano Alberto Deodato conheceu-a com 80 anos de idade, abastada, “íntima da grã-finagem”, a passear pelo Rio num carro puxado por dois cavalos. De cafetina-mor, diz Deodato, passara a “dona Suzana”, na esperança de “equilibrar com o Padre Eterno a sua conta corrente”. Como ninguém é de ferro, seguia frequentando a confeitaria Colombo – mas só “depois da hora das famílias”, observa Luís Edmundo, testemunha do crepúsculo da grande dama, que morrerá em 1925: em 1901, “ainda é uma velhota esperta, gorda, a cabeça totalmente branca, por cima de uma peitarra enorme, graças à qual ela não pode ver os pés”.

Mundana em mais de uma sentido, Suzana Castera virou personagem na pena dos humoristas. Seria ninguém menos que a viúva de Pedro Álvares Cabral, imaginou um deles. O almirante português só teria descoberto o Brasil porque, no balanço da caravela, enredou-se de tal modo nos braços de Suzana Castera que acabou perdendo o controle da frota, a qual, sem rumo, veio dar às costas da Bahia. Uma charge na revista satírica D. Quixote mostra o casal a bordo, recepcionando índios para um “thé-tango”, no caso “chá de tanga”. Irreverente, o título do desenho faz trocadilho com o da tela em que Victor Meirelles registrou a primeira celebração cristã em terras de Vera Cruz: “A primeira ‘miss’ no Brasil”.

Personagem de caricatura? Tem gente que por muito menos, ou até por nada, vira nome de rua... 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.