Ofício de ator em questão

Caco Ciocler está em 45 Minutos, de Marcelo Pedreira

Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2011 | 00h00

Para avaliar o tanto de emoção que se pode comprimir em 45 minutos, não há público melhor do que o nosso. É essa a duração temporal estipulada para o primeiro tempo de uma partida de futebol e nesse intervalo, balizado pela convenção do jogo, se decide a alegria ou tristeza de milhares de cidadãos brasileiros. Não é de hoje que o teatro se ressente dessa paixão avassaladora das multidões pelo jogo. Além do esporte, o cotejo entre a arte cênica e os meios de comunicação em massa ocupou, durante a segunda metade do século 20, lugar de relevo nos debates e reflexões filosóficas sobre a função da arte. Resumindo de modo curto e grosso, pode-se dizer que os artistas e pensadores do palco almejavam a amplidão dos estádios romanos para animá-los com as paixões sublimes dos anfiteatros gregos. "Biscoito fino para as massas" foi a definição genial que Oswald de Andrade deu à aspiração de popularidade do teatro.

É preciso reconhecer que, em termos quantitativos, o teatro perdeu de goleada todos os certames. Primeiro o cinema, depois a televisão e, por fim, as redes de computação expandiram ao inimaginável a capacidade de oferecer muita bobagem para muita gente. E é em parte esse ressentimento persistente que constitui a motivação da peça de Marcelo Pereira. Em 45 Minutos, o ator-personagem representado por Caco Ciocler expressa o rancor de uma linguagem artística cujas altas ambições de comunicabilidade estão simbolicamente confinadas ao quartinho do fundo. O ator da peça tem a incumbência de "entreter", divertir, fazer passar o tempo e talvez mobilizar a plateia com alguma graça. São tarefas que a indústria cultural desempenha com competência e proveito, enquanto a personagem em cena manifesta repetidamente seu constrangimento por estar em cena e a repulsa pela missão de ser agradável.

Quase descortês ao negar o prazer do convívio com a plateia, francamente desdenhoso da própria atuação forçada, o intérprete imaginado por Marcelo Pedreira integra a fraternidade das criaturas de Samuel Beckett e Peter Handke. É impelido pela autoridade do patrão, vive isolado e está a serviço de uma linguagem cuja glória é coisa do passado. Ressentimento, irritação e, na perspectiva da direção de Roberto Alvim, um desânimo próximo da morte, impregnam o discurso tateante e supostamente improvisado. As emoções negativas da representação são, em essência, o tema da peça. Mais interessante do que a descrição da situação profissional e material do "intérprete", é a franca hostilidade endereçada tanto ao ofício quanto à passividade do público. Aliciar, seduzir e emocionar exigem um tremendo esforço e o homem que se recusa a fazer isso em cena sugere, por oposição, a gigantesca energia necessária para tornar a cena um lugar de afirmações importantes e paixões elevadas.

E é também pela via negativa do silêncio e da escuridão que se afirma a potência da comunicação teatral. Quase invisível diante de uma plateia expectante, o homem silencioso e imóvel ainda é capaz de concentrar sobre sua figura a atenção dos presentes. É possível que tenha desapontado espectadores que esperam dele outra coisa além da renúncia, mas é também possível que parte da plateia aceite essa reticência como provocação intelectual. De qualquer forma, o mutismo final da personagem é um excelente golpe de teatro. Mais melancólica do que exasperada, a interpretação de Caco Ciocler parece inspirar-se na máscara de Pierrô. A voz é mansa, a dicção erudita e cortês e mesmo as frases e atitudes hostis endereçadas ao público são revestidas de autopiedade lacrimosa. Por essa razão, parece improvável que o ator-personagem tenha a ousadia de respeitar apenas o tempo do jogo sem respeitar as outras convenções do espetáculo teatral.

Desafiar a expectativa do público por um período de tempo tão longo quanto o tempo esportivo é trabalho duro e uma ideia instigante. Valeria a pena insistir nisso. Marcelo Pedreira, no entanto, se desvia do assunto em mais de uma ocasião, fazendo com que sua personagem enverede por indagações metafísicas sobre o sentido da existência e especulações sobre a pertinência da comunicação artística. São temas amplos e abstratos que poderiam ter, talvez, uma função irônica. Tratados de modo grave e sério no espetáculo, amenizam o desconforto provocado pela presença de um ator que não simpatiza com o público.

45 MINUTOS - CCSP. Rua Vergueiro, 1.000, tel, 3397-4002, metrô Vergueiro. 5ª a sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 20. Até 14/8.

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