Oficina sonha em usar estacionamento do baú

Grupo teatral Uzyna Uzona faz apelo a Silvio Santos para poder montar a[br]programação das Dyonizíacas, no início de novembro, em área do empresário

José Celso Martinez Corrêa ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2010 | 00h00

Lutamos 30 anos por estes dias, contracenando com nosso público e com você, Silvio Santos, a Musa de nosso crescimento social e estético, jogando sempre no papel de nosso Antagonista com a mesma elegância, virtude, com que hoje assume pessoalmente todas as dívidas de seu banco, dispondo de todas as suas empresas, apoiado delicada e publicamente pelas suas Quatro Míticas Filhas e Esposa.

Queremos realizar estas Dionizíacas em Sampã, dedicando-a a você, público de Sampã, especialmente a você, do bairro do Bixiga e a você, Silvio Santos, como nosso "coréga". Assim chamavam os gregos, os que recebiam a honraria de patrocinar os coros da tragédia grega. O cidadão era escolhido entre os mais ilustres e ricos das cidades.

Desejamos não seu dinheiro, Silvio Santos, mas que coroemos juntos o final destes 30 anos de Guerra, dando início a uma paz duradoura, fazendo acontecer numa estrutura de teatro de estádio provisória, construída no ex-estacionamento do Baú da Felicidade por três semanas, as Dionizíacas de Sampã.

O entorno do Oficina, não poderá ter outro destino de compra ou venda, por seu tombamento federal. No espólio de seu Grupo, este lugar terá este destino, mas isso virá num processo mais complexo, que pressupõe o tempo das negociações jurídicas, burocráticas, e de construção deste Complexo Cultural.

Queremos é aproveitar agora esta oportunidade histórica, de ter a Rua Canudos Oficina aberta e o seu espaço emprestado para darmos uma mostra concreta da grandiosidade do projeto que ambicionamos para este chacra de Sampã, o Bixiga.

O público entraria para esta maquete de estádio de teat(r)o para 2.000 pessoas, pela Rua Oficina Canudos - projetada há 30 anos por um dos maiores "arquitetos" do século 20, Lina Bo Bardi - a própria pista do Teat(r)o Oficina.

O início do 1.º rito-espetáculo: Taniko, um Nô Japonês, que recriamos como "nô bossa nova trans-zen-iko", homenageando os 102 anos da imigração japonesa para o Brasil, nossa primeira peça para crianças de todas as idades, é a abertura do beco sem saída no final da pista-rua do Teat(r)o Oficina. O arquiteto Edson Elito, que concluiu a 1.ª Parte da obra de Lina Bardi, prepara-se para fazer a engenharia desta abertura com o carinho e a delicadeza zen do rito espetáculo que a inaugura.

Três semanas. Silvio Santos, você e sua família, o povo do Bixiga, e de Sampã, são os convidados especiais dos artistas de todas as mídias e procedências que participarem deste rito e especialmente dos artistas do Oficina Uzyna Uzona, a inaugurarem esta rua e o estádio provisório, que depois de três semanas, será desmontado.

Este acontecimento se iniciará com uma semana de oficinas Uzynas Uzonas multimídias, e ocuparia o ex-estacionamento do Baú por três semanas, para a construção das estruturas provisórias, ensaios das quatro peças e apresentação das mesmas. Tudo deve acontecer entre a última semana deste mês de novembro até as semanas que terminam no dia 13 de dezembro.

Hoje o quarteirão do Teat(r)o Oficina está cercado pelas demolições, até a padaria da esquina, a Java, entrou em obras. A paisagem não é nada bela. Que grande alegria despertaria no Bixiga, na Cidade de Sampã, no Brasil e no mundo este fim de ano com esta epifania, acontecida no glorioso final do governo internacionalista de Lula e do início do governo da primeira presidente brasileira eleita democraticamente, Dilma Roussef, em que uma crise num grupo financeiro determina uma saída, numa área de entendimento de todos os contrários: a arte, a cultura.

Sacrário. A democracia não é uma palavra vã nesta área em que a liberdade criadora está além dos partidos, das religiões, das ideologias, e onde o que era antes contrário, pode virar sacrário.

As apresentações de Taniko, Estrela Brazyleira a Vagar Cacilda !!, Bacantes e O Banquete, patrocinadas pelo MinC, de graça em estruturas de teatro de estádio, para multidões, em sete capitais do Brasil, assim como as Oficinas Uzynas Uzonas que as precedem, realizadas com artistas de cada cidade, acontecerão também aqui em Sampã. Estas serão realizadas com certeza, no terreiro eletrônico da Rua Jaceguay, 520, e as Dionizíacas, é nosso desejo, que aconteçam no terreno do ex-estacionamento do Baú da Felicidade em estruturas provisórias de Teat(r)o de Estádio como foram as das sete capitais percorridas. Será o embrião deste Complexo Cultural que tem no próprio nome o desejo de associação com a entidade criada por sua pessoa, o Anhangabaú da Feliz Cidade.

Estamos convidando artistas de todas as mídias, que amam a Antropofagia, a vir conosco das sete capitais onde já "oficinuzynamos" e daqui de nossa cidade, para juntos criarmos as Dionizíacas em Sampã , a 8.ª brasileira, em Oficinas Uzynas Uzonas, um rito de passagem transportador para um além das indecisões finais do teatro dramático, do de câmera, do dos monólogos, para o salto profissional mortal-imortal, ao teatro de estádio da ópera de carnaval da "tragycomédiorgya", futebol das emoções da metrópole, no Anhangabaú da Feliz Cidade.

Entorno. No tombamento federal do Teat(r)o Oficina, a parecerista que o apresentou, Jurema Machado, membro do Conselho do Iphan e coordenadora do setor cultural da Unesco no Brasil, no final de seu documento oficial, propõe que o ministro da cultura do Brasil, os secretários de cultura do Estado e do município de São Paulo, unam esforços para comprar ou desapropriar o entorno do Teatro Oficina, para a realização do projeto do Teatro de Estádio, da Universidade Antropófaga, e da Oficina de Florestas, do verdejar que se espalhará por todo Bixiga.

Estudamos nas sete capitais com os artistas e público de cada cidade, esta arte do Brasil de hoje, o dos BRICS, países desequilibradores do monopólio global de um só império. A arte do teat(r)o, vinda do momento mais forte desta arte como arte pública, no mundo: a tragédia grega. Exatamente o teatro de ágora, que o morador da Rua Ricardo Batista do Bixiga, Oswald de Andrade, em 1943, no seu Manifesto pelo Teatro de Estádio no livro Ponta de Lança, no texto: "Do Teatro que é Bom", anunciou como o que mais em se plantando daria na "Grécia Carnavalesca do Brasil".

Guetos. A prática deste teat(r)o, tornada pública agora nas Oficinas Uzynas Uzonas de Sampã, no Bixiga, visam a re-existência deste bairro como centro-periférico de encontro de todos os guetos desta metrópole, como hoje é a Lapa no Rio de Janeiro.

Este é nosso desejo exposto publicamente neste texto. É pegar ou largar. Se você, Silvio Santos, não quiser realizar agora este sonho de paz de 30 anos, ele não acaba. o sonho estará presente com toda sua explosão cardíaca de entusiasmo, nos ritos-espetáculos que então realizar-se-ão no próprio Teatro Oficina. Mas a nossa luta de 30 anos criará um gran finale, uma vitória, iniciadora de uma outra era para o teatro e a cultura do Brasil.

A grandeza que atingiu a dimensão trans-humana do ser brasileiro nestes tempos, está presente em atos e atitude de humanos com a sua força, com a do povo brasileiro, com a do nosso presidente, com a nossa de poderosos humanos do Oficina Uzyna Uzona, que inspirará Dilma Roussef e a continuidade no ministério de quem propiciou este salto, este sonho: o ministro da cultura Juca Ferreira.

JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA É AUTOR, MÚSICO, COMPOSITOR, CANTOR, ATOR, DIRETOR E PALHAÇO DO TEAT(R)O OFICINA UZYNA UZONA

PARA ENTENDER

O que são as Dyonizíacas?

Promovido pelo Teatro Oficina, o festival Dyonizíacas em Viagem é um projeto apoiado pelo Ministério da Cultura que prevê a apresentação de quatro espetáculos do repertório do grupo: Taniko, o Rito do Mar; Estrela Brasyleira a Vagar - Cacilda!; Bacantes e O Banquete. Sua turnê, que passou por sete capitais brasileiras, promoveu encenações para grandes plateias, de cerca de 1.500 pessoas. O projeto deve se encerrar em dezembro, com sessões em São Paulo.

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