Ofereci palavras, João Carlos me deu música

Adolescente, ouvi meu pai dizer ao Luis, meu irmão, e a mim: "Vocês vão comigo nesta viagem para conhecer o prédio da Sorocabana." Ele andava em estado de graça, tinha sido promovido a chefe do escritório central da estrada de ferro, a Contadoria, cargo com que sonhara desde o primeiro dia em que começou a trabalhar. São Paulo para ele era o que é hoje Paris, Nova York, Londres, Barcelona para nós, um destino encantado. Meu pai adorava esta cidade e passou a vida a trazer filhos, parentes, amigos, revelando-a em detalhes que iam do cine Metro a uma viagem no bonde Penha-Lapa, um dos trajetos mais longos, mostrando o luminoso do café Paraventi, em que um bule derramava café numa xícara. Puro deslumbramento.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2011 | 03h08

Daquela vez, ele nos levou ao prédio da Sorocabana, ferrovia que ia até a barranca do rio, na divisa de São Paulo com Mato Grosso. Queria nos mostrar o pátio interno com jardim do edifício da administração, que nos parecia um palácio imponente. Como eram grandiosas as ferrovias! Meu pai nos deixou no jardim, foi à reunião. Luis e eu gozamos o esplendor de um castelo real.

Passados 60 anos, no dia 18 deste mês, ali estava eu outra vez naquele que foi o pátio interno da Sorocabana. Só que no camarote 9 da Sala São Paulo. Imagens se atropelaram na minha cabeça, fios se entrelaçando, rompendo e se reencontrando. Pois a Sala São Paulo hoje é a construção que revestiu aquele pátio que era mágico e agora, por meio da música, continua a ser. À minha frente, João Carlos Martins alternava-se com Diogo Pacheco na regência da Bachiana Filarmônica Sesi SP, num programa que trouxe Mozart, Puccini, Guerra Peixe, Villa-Lobos e terminou paulistanamente com Trem das Onze, de Adoniran Barbosa. Diogo voltou a reger aos 86 anos, depois de anos afastado por um AVC.

Voltou impecável e bem-humorado, contando ao público como, em 1968, foi convidado para fazer uma ponta no filme Bebel, Garota Propaganda, baseado em meu primeiro romance. Ensaiou dez vezes a sua fala. Todos riram quando ele revelou o seu único diálogo: "Encha o tanque, por favor", dito ao frentista de um posto de gasolina. Diogo, um amigo que, ao longo dos anos, ao nos cruzarmos na rua, brincávamos, ele gritando para o outro lado da rua: "Olá, maior escritor do Brasil", ao que eu respondia: "Olá, maior maestro do Brasil". Ele terminava: "E do mundo." Outra vez, numa palestra em que comentei que quando jovem achava cafonas os sapatos de camurça, ele, na primeira fila apontou para meu pé, eu trazia um par de camurça. Tempo e idade nos mudam, ainda bem.

Ah, que manhã foi aquela de duas semanas atrás! Foi além da orquestra. Além dos jovens músicos que Martins vai descobrindo por este Brasil afora. Além do coral de Botucatu, em que havia um menino de 7 anos, no máximo. Além desse projeto com jovens carentes que é parte de outro sonho imenso, porque João Carlos quer formar, nos próximos dez anos, mil orquestras no Brasil. Quem superou o que ele superou, vai conseguir. Fadado a nunca mais tocar, hoje toca e rege. Ah, manhã que me calou e comoveu. Antes da última música, João Carlos, chorando, mal conseguiu dedicar a mim o último concerto da temporada. Tudo por uma crônica que publiquei há meses, pedindo a ele que me perdoasse por um momento de inconsequência, quando cometi uma injustiça. Vocês não têm ideia do que isso significou. Fiquei travado porque, como Brandão, sou duro na queda. Destino esse, uma dureza que nos agonia. Ofereci palavras, ele me devolveu em música.

Ainda emocionado, no final caminhei para o saguão para abraçar João Carlos e agradecer. A meio caminho, fui interpelado por um jovem:

- Meu pai trabalhou com você no jornal Última Hora.

Não restam muitos da equipe do jornal onde me formei. Olhei para o jovem. Quem seria? Mil rostos passaram por mim. Momentos do final dos anos 50.

- Quem era seu pai?

- Natanael Azevedo.

Esta é uma idade em que a gente, temeroso, acaba obrigado a fazer uma pergunta:

- Nossa, Natanael. Está vivo ainda?

- Vivo e bem aos 86 anos. Faz esteira todos os dias.

Próprio do Natanael que precisava se mostrar durão, afinal, era quem controlava o dinheiro, as finanças, num momento em que havia uma crise no jornal. Quando cheguei, ainda repercutia a polêmica entre Samuel Wainer e Carlos Lacerda. Este, líder da UDN, acusava Samuel de, sendo judeu nascido na Bessarabia, estar impedido de dirigir um jornal brasileiro. Claro, a UH defendia Getúlio que Lacerda execrava. Foi um pega para valer e os anunciantes de UH se retraíram. Só me aliviei (eu e a maioria) financeiramente depois que as revistas mensais proliferaram e buscavam gente experiente em jornal, gente rápida no fechamento, no título. Naquele saguão da Sala São Paulo, outro pedaço de vida se iluminou mansinho. Com o retorno de momentos curiosos de 1957.

Aos sábados, formava-se uma fila diante do guichê da Tesouraria que começava a emitir vales. À medida que a fila chegava ao fim, o dinheiro entrava miúdo, em notas de 1, 2 ou 5 cruzeiros, que era o dinheiro que vinha direto das bancas de jornais. Até o momento em que o último tostão se ia e Natanael, desolado, mostrava a gaveta vazia. Vale? Só na próxima semana. Ou quinzena.

Saí dali pela manhã ensolarada e achei que merecíamos um almoço no centro onde passei os dez primeiros anos de minha vida paulistana. Atravessei a cracolândia pela Rua do Triunfo, a das distribuidoras de cinema, ali onde nasceu a Palma de Ouro de Anselmo Duarte, e fomos ao Dona Onça, da Janaína Rueda, rainha do centro com seu picadinho, seu cuscuz, suas cachaças. Bom ano para todo o sempre para todos nós.

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