"Odisséia" do teatro termina com crucificação da TV

Um grupo pequeno mas excepcional passou as noites das últimas duas semanas discutindo a história e os rumos do teatro nacional. Presentes na platéia e no palco do Teatro Ágora, na região central de São Paulo, estavam os maiores e mais importantes nomes do gênero no País no evento A Odisséia do Teatro Brasileiro, organizado por Roberto Lage e Celso Frateschi. Sábato Magaldi, Fernando Peixoto, João das Neves, Aderbal Freire Filho, José Celso Martinez Corrêa, Augusto Boal e Antunes Filho, fizeram a alegria de uma platéia de 100 pessoas (em um teatro de 90 lugares) ávidas por novas idéias dos velhos mestres do teatro. Foram 11 dias de palestras onde a briga entre TV e teatro recebeu atenção especial dos convidados e do público. A lógica capitalista da TV e as pretensões artísticas do teatro sempre foram antagônicas. No evento, as diferenças vieram à tona mostrando a disputa por público, atores e espaço, durante estes 50 anos de coexistência "quase" pacífica. O diretor João das Neves apresentou-se no dia 21 e contou sua história. Em 83 ele montou a peça Dois Perdidos numa Noite Suja do saudoso Plínio Marcos. Na última cena da peça, o ator deveria apontar a arma para o público e disparar, em um ato simbólico que fechava o espetáculo. O ator responsável pelo tiro negou-se a fazer a cena. Explicou que o ato poderia prejudicar a imagem do personagem que interpretava em novela da rede Globo. O diretor abandonou o espetáculo e acabou indo para o Acre concretizar suas experiências teatrais. Formou o grupo Poranga com quem fez a peça Tributo a Chico Mendes entre outros projetos com os índios da Nação Caxinauá. Desde então nunca mais entrou em conflito. "Eu não falo mal da televisão por que ela não me interesa em nada, prefiro falar de teatro", afirma João das Neves. O diretor desconhece a crise de público que o teatro passa. "Há 12 anos que todos os meus espetáculos estão cheios", diz. A fórmula de João é simples, seus projetos são financiados por prefeituras e ligados à comunidades carentes de arte gratuita. "A TV ganha do teatro por que é de graça e entra na casa do público, o teatro tem que fazer o mesmo, ser mais barato e se aproximar do público", conclui.Fazendo o contra-ponto estava Aderbal Freire Filho, que dividiu a mesa com João das Neves. Ele dirige as "globais" Débora Bloch e Fernanda Torres na peça Duas Mulheres e um Cadáver, em cartaz no Rio de Janeiro, e também sofre com a influência da televisão. "A face mais cruel é que só a TV legitima o ator, se ele não estiver na telinha ele é visto como um fracassado diante da sociedade", analisa Aderbal.As palestras do dia 22 foram mais calmas. Márcio de Souza, presidente da Funarte, e Luis Paulo Vasconcelos, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, falaram dos projetos públicos como o Festival de Teatro de Porto Alegre que este ano recebe o autor inglês Peter Brook.Na noite mais divertida do evento Augusto Boal contou toda sua tragetória até chegar ao Teatro do Oprimido. Com jeito para histórias engraçadas, Boal traçou uma brilhante linha do tempo desde o Teatro de Arena na década de 60 até o Teatro Legislativo que o diretor desenvolveu na década de 90 como vereador da cidade do Rio de Janeiro. Suas peripécias interpretando textos didáticos para os guerrilheiros das Ligas Camponesas do Araguaia em 1964 ensinou-lhe uma lição. "Percebi que nunca posso dizer às pessoas para fazer a revolução, se eu não for capaz de estar na primeira fila de combate", afirma Boal. Mas além da aula de história do teatro, Boal também deu sua alfinetada no domínio televisivo. "O espectador carioca não assiste mais ao teatro, ele apenas vai para ver se o ator que ele vê na novela é de verdade mesmo, se ele existe", conclui.O coordenador do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) Antunes Filho fechou o seminário com chave de ouro. Sua palestra era a mais esperada do evento e foi realmente decisiva para a discussão. O diretor criticou indiretamente, a própria realização do evento Odisséia do Teatro Brasileiro. "Não pode permanecer esta divisão, os ´globais´ fazendo as super produções e a raia míuda aqui fazendo reunião para ficar reclamando", disse Antunes Filho. "Não adianta ficar lamentando a globalização e a TV, precisamos seguir em frente, sendo espertos e estudando muito". E ele continua sua conclusão certeira. "Realmente, muito pouca gente vai ao teatro, e isto é irreversível. Mas nós do teatro temos que estender a mão ao antagonista, temos que discutir com ele e temos que convencê-lo sim", finalizou Antunes, propondo um maior diálogo entre os dois meios. Amanhã, o ciclo de seminários termina com uma análise sobre as duas semanas de discussões. Às 20h, na rua Rui Barbosa, 672. Fone: (11) 284-0290.

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