Odisseia crítica

Livro do historiador irlandês Mark Cousins evita visão eurocêntrica ao descrever trajetória da sétima arte

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h07

O crítico de cinema irlandês Mark Cousins, 46, não é ainda um nome popular no Brasil, mas a série de documentários que ele realizou, baseada em seu livro História do Cinema, fez sucesso na televisão inglesa e chegou a ser exibida no Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York. Publicado originalmente em 2004, seu livro chega agora em tradução brasileira assinada por Cecília Carmargo Bartalotti para a Editora Martins/Martins Fontes. É uma história pouco convencional do cinema, embora siga a cronologia consagrada em outras obras do gênero, contando desde os primórdios da indústria hollywoodiana aos avanços do cinema digital.

Cousins esclarece, logo no início do livro, que não pretende contar a história dessa indústria, até porque vê o cinema como território de experimentação, não de repetição de fórmulas. Assim, não surpreende que o crítico se concentre na figura de diretores inovadores - sejam eles o americano David Lynch ou o russo Aleksandr Sokurov- e busque traços de semelhança estilística que aproximem realizadores de continentes diferentes. Ele conta casos curiosos como o do ex-calvinista americano Paul Schrader, vidrado em autores europeus (Bergman, Bresson, Dreyer), que contratou o diretor de arte de O Conformista, Ferdinando Scarfiotti, para imitar a iluminação do filme de Bertolucci, fotografado por Vittorio Storaro.

O jogo de luz e sombras de Bertolucci em O Conformista, cujo protagonista é um ambíguo burguês que serve ao regime fascista, é replicado em Gigolô Americano (1980), de Schrader, que alçou Richard Gere ao estrelato no papel de um prostituto que atende mulheres ricas. Schrader, ele mesmo submetido a movimento pendular entre o protestantismo e a liberação sexual, reflete e amplia a repressão do fascista de O Conformista em seu filme.

Cousins fala de um "fluxo bidirecional" entre os cinemas americano e europeu nos anos 1970 e 1980, que ajudaria inclusive europeus como Bertolucci a aproveitar ao máximo não só as lições da Nouvelle Vague francesa como as inovações dos outsiders de Hollywood.

O historiador vai atrás justamente dessas influências, descobrindo curiosas relações entre cineastas antípodas. Cousins mostra como o franco-suíço Godard adaptou, em Duas ou Três Coisas Que eu Sei Dela (1967), uma cena filmada 20 anos antes pelo inglês Carol Reed em O Outro Homem (Odd Man Out ,1947), depois aproveitada pelo norte-americano Martin Scorsese em Taxi Driver (1976). Reed ensinou a ambos como resumir a angústia de um homem que vê sua miséria refletida nas bolhas de uma bebida derramada. Foi um "meme" replicado e que evoluiu de Reed a Scorsese, segundo sua concepção - que recorre à teoria do cientista Richard Dawkins (O Gene Egoísta), de que a arte deve mais à genética do que a um sistema moral, como defendia John Ruskin.

Seu livro, portanto, é uma história de como o cinema evoluiu como linguagem replicando-se em genes. Ele vê na reprodução de espaços impessoais criados pelo cineasta King Vidor em A Tumba (1928) a origem de cenas mutantes como a de Jack Lemmon no escritório sem fim de Se Meu Apartamento Falasse (1960), de Billy Wilder, e na burocrática repartição de O Processo (1962), que Orson Welles . Isso ilustra, segundo Cousins, "que o filme tem uma gramática e que, em alguns aspectos, cresce e sofre mutações".

Convicto de que o cinema se faz com paixão e ideias, não com dinheiro, Cousins vai atrás dos filmes produzidos nos países emergentes, revelando sua cinefilia passional. Filmes iranianos dirigidos por Abbas Kiarostami dividem espaço com grande produções americanas, brasileiras (Glauber Rocha e Walter Salles) e filmes chineses vistos apenas em cineclubes, oferecendo ao leitor uma visão nada eurocêntrica da produção de cinema. E não são apenas chineses contemporâneos. Ele fala de produções modernas da China nos anos 1930, época da invasão japonesa da Manchúria, quando os realizadores chineses, antecipando o cinema neorrealista italiano, usavam locações reais e populares como atores.

Cousins desenvolve na Irlanda (com a atriz Tilda Swinton) um projeto semelhante ao Cine Tela Brasil, de Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi - que leva cinema itinerante a lugares remotos. Seu lado didático é explicável também por essa experiência pedagógica, de quem ensina a neófitos a importância dos filmes de Murnau (como Aurora), Godard (Acossado), Polanski (Chinatown), Pasolini (O Evangelho Segundo São Mateus) e Visconti (Os Deuses Malditos), alguns dos seus diretores preferidos analisados em História do Cinema.

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