Ódios e amores latino-americanos

Nova narrativa de Maria José Silveira mergulha no passado e na atualidade do continente e suas idiossincrasias

Beatriz Resende, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

Como nos conhecemos pouco, nosotros latino-americanos. A leitura de algumas manchetes de jornal, breves lembranças de viagens, idas à europeia Buenos Aires, compõem nosso repertório. Pois é o passado e o presente desta América Latina a matéria do último romance de Maria José Silveira, Como Esse Ódio e Esse Amor.

Uma engenheira brasileira, apaixonada pela construção de pontes, signo importante na geografia deste continente pela escassez das pontes culturais a nos ligarem, é sequestrada pelas FARC, em Bogotá, onde vai trabalhar em empresa de construção civil.

Micaela chega à cidade sabendo pouco sobre sua realidade, de tupamaros nunca ouvira falar, as ameaças no narcotráfico não a assustam. Aos poucos, as cores, cheiros e ruídos da cidade lhe vão sendo apresentados pelo cineasta que trabalha em seu primeiro longa, a história de Tupac Amaru, personagem peruano do século 18. A partir daí a narrativa intercala os últimos momentos do incanato, em luta contra os dominadores espanhóis, com a da jovem Lela.

Construída a partir de belo poema de José Maria Argueda e da literatura histórica sobre a colonização da América Hispânica, a narrativa nos surpreende pela visão crítica que identifica no passado de dores, ambições, heroísmo e traição, momentos que envolvem não apenas a violência do império europeu contra uma cultura desenvolvida e uma nobreza autóctone, mas também o papel de negros e indígenas escravizados. À pesquisa de tais documentos, juntam-se depoimentos de prisioneiros das FARC e estudos sobre os movimentos políticos na Colômbia. O resultado é uma obra envolvente, onde aparecem recursos diversos como a ironia no uso do portunhol ou a troca de e-mails. A política, o braço clandestino do governo, corrupção, o narcotráfico, a busca de soluções e a rebeldia dos que querem "um país normal" mesclam-se a novas relações de trabalho na economia neoliberal e relações de subalternidade e superioridade que se estabelecem na America latina do pós-colonialismo, realidade em que o Brasil certamente se inclui.

Paralelas às lembranças e conflitos da jovem Micaela, inclusive a complicada relação entre prisioneiro e carcereiro, vão sendo apresentadas heroínas surpreendentes, dando às mulheres, na construção de nossos países ainda periféricos, um surpreendente protagonismo.

Não à toa, a brasileira Lela frequentemente tem a impressão de que os personagens que encontra no país estrangeiro já são conhecidos de algum lugar. Como o ódio e o amor que experimentamos por nossa América.

BEATRIZ RESENDE É PROFESSORA DA UNIRIO, COORDENADORA DO FÓRUM DE CIÊNCIA E CULTURA DA UFRJ E AUTORA DE CONTEMPORÂNEOS: EXPRESSÕES DA LITERATURA BRASILEIRA NO SÉCULO 21 (CASA DA PALAVRA)

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