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Fábio Porchat
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Ódio

Um dia, eu ouvi que a felicidade se encontra nas pequenas coisas. Pode ser. Mas eu diria também que o ódio reside nas coisas mais banais. Não me importa se eu estou feliz, pleno, realizado, bem de saúde, se eu ganhei na loto, se minha tia avó sobreviveu sem sequelas a um naufrágio, tudo isso se evapora no instante em que eu estou comendo e mordo a minha própria bochecha. O meu ser é tomado de uma raiva tão absoluta que nada mais me importa a não ser me amaldiçoar pra sempre.

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2014 | 02h08

E morder a bochecha a ponto de arrancar pedaço e sair sangue dá um ódio duplo, porque agora eu sei que, durante uma semana, eu vou ficar mordendo aquele mesmo lugar sem querer. São as coisas insignificantes da vida que me desestabilizam. Recebi no celular outro dia uma foto de uma criança subnutrida na África, tomando água de uma poça de lama e sorrindo. Triste e lindo ao mesmo tempo. Moral da história: não podemos reclamar da vida. Mas foi entrar no banho e não conseguir regular a água do chuveiro que eu me dei conta de que a vida é uma merda! Tem coisa mais desesperadora do que você já no banho ter que ficar regulando milimetricamente a água quente e fria porque ou ela fica pelando ou gelada?

O meu mau humor vem de situações como deitar na cama e me dar conta de que não apaguei a luz da sala. E gente que anda devagar. Elas só saem de casa quando eu to com pressa, ou elas caminham devagar todos os dias e eu é que não me dou conta? Essas são as mesmas pessoas que param do nada. Estão andando, olhando pra frente e, de repente, como que tomadas por uma iluminação divina: param. Não encontraram ninguém, não olharam para uma vitrine, não pisaram em nada, elas simplesmente param, obviamente com uma só finalidade, me irritar profundamente.

Tem dias em que eu sei que o mundo está dedicado a me incomodar, isso é um fato. E o dia em que eu sou o escolhido do demônio, não é o dia em que eu quebro o braço, em que eu sou assaltado, o dia em que meu avião cai, não... O dia em que minha vida sofre bullying do destino é o dia em que eu entro no elevador, aperto o térreo e quando o elevador desce vinte centímetros eu me dou conta de que esqueci a carteira em casa. Ou chego na porta de casa e percebo que deixei a chave no carro. E não importa o que diga a mensagem fofa do celular, o Carpe Diem tatuado no cóccix da gostosa, ou a frase de efeito do livro do Paulo Coelho, enquanto houver espinhas no peixe que eu estou comendo e eu só descobri-las já na minha boca, eu vou amaldiçoar com todas as minhas forças a existência humana no planeta!

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