Odes do menino do mato em alemão

A alemã Britta Pimentel e a brasileira Sofia Mariutti enfrentaram o desafio de verter poemas de Manoel de Barros

José Orenstein,

03 de outubro de 2010 | 00h10

Não, Manoel de Barros não mora no mato. Mas talvez seja mesmo o mato que more nele, menino de 93 anos. Quem conta é a alemã Britta Morrisse Pimentel, que foi ter com o poeta na casa dele, em Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, acompanhada da brasileira Sofia Mariutti, nos fins do último agosto. Britta e Sofia foram mostrar a Manoel seus próprios versos - só que vertidos para o alemão.

A história desse encontro começou há pouco mais de um ano e meio, quando Britta descobriu os poemas de Manoel de Barros numa de suas constantes vindas ao Brasil. Comprou três livros, Livro Sobre Nada (1996), Ensaios Fotográficos (2000) e Menino do Mato (2010), e os levou consigo de volta a Hamburgo. Depois de lê-los, contaminada pelas despalavras do poeta, queria mais. Mas se frustrou na busca pelos livros do escritor pantaneiro: "Procurei na Alemanha inteira e não tem; nem mesmo nas bibliotecas das universidades", conta.

Foi a chave para que Britta, que já flertava com a possibilidade de traduzir Guimarães Rosa, se decidisse a verter para o alemão o poeta que muitos veem irmanado com o autor de Grande Sertão: Veredas. Todos os livros de Rosa têm tradução saxônica, mas os de Manoel ainda "são completamente desconhecidos na Alemanha", afirma Britta.

Advogada e fotógrafa, ela tem passaporte brasileiro expedido "com validade eterna", como diz, em 1971, ano em que aportou do lado de cá do Atlântico para por aqui viver por uma década. Eis que, por intermédio de um amigo, Britta teve acesso às recém-lançadas obras completas de Manoel, ainda em 2009.

A alemã então escolheu 80 fragmentos de poemas de uns 17 livros. Entre insistentes telefonemas e correspondências com o poeta, Britta logo recebeu resposta em favor da tradução - referendada por termo de cessão de direitos redigido pelo próprio Manoel, também advogado.

Com a ajuda de Sofia, estudante de Letras da USP que fazia intercâmbio na Alemanha e que conhecera antes no Brasil, Britta lançou-se então ao desafio de transpor a poesia peculiar de Manoel para o alemão.

Palavras para brincar. "Bernardo não sabia nem os nomes das letras de uma palavra/ Mas soletrava rãs melhor que mim", escreve Manoel, no seu último livro, Menino do Mato. Mas como traduzir esses "erros-brincadeiras" com a língua portuguesa para o alemão? "Brincar na Alemanha é mais difícil. A gente não brinca com a gramática, não é possível!", diz Britta entre risos e rubores.

A opção das tradutoras foi então tentar ao máximo resguardar a invenção poética e linguística de Manoel, lançando mão de neologismos e formulações sintáticas, sem no entanto entortar além da conta a rígida estrutura do alemão. "O português permite mais o coloquialismo porque há um abismo entre a língua falada e a escrita. Em alemão não cabe esse jogo do certo e errado; o alemão incorreto fica aleijado, feio", garante Britta.

"Normalmente se fala que é tão difícil traduzir poesia pela rigidez, porque você tem que traduzir o som, o sentido, as rimas, a métrica. Mas no Manoel não é essa a dificuldade. A dificuldade é pela liberdade. A gente teve que traduzir essa liberdade para uma língua que não comporta muito isso", completa Sofia.

Nos limites da língua, enfim, elas buscaram transferir o conteúdo da poesia de Manoel para o alemão, atentas para que soasse de forma "bonita" também. E é afinal o conteúdo, plasmado na linguagem particular do poeta, que abre a porta da brasileiríssima universalidade da arte de Manoel de Barros.

Faiscados. "Ele ensina como se ganha acesso à natureza, não a olhando, mas entrando numa fusão com ela. E o alemão não conhece, não tem esse acesso. A poesia do Manoel ensina isso, como se fosse um segredo", afirma Britta com olhos faiscados.

Em tempos de ambientalismo e sustentabilidade, a mensagem de Manoel, segundo Britta, fascina os alemães - "todas as pessoas para quem eu mostrei ficaram maravilhadas com a poesia dele" - porque apresenta caminho diverso. "Essas são odes racionais à natureza, que todo mundo apoia, mas que estão distantes da pessoa. O encanto do Manoel é a fusão", pondera.

Em sete capítulos apelidados de "carretas" - carregadas de fragmentos poéticos em que se expressa a "filosofia da liberdade" de Manoel, "sem princípios, regras, convenções ou convicções" -, Britta organizou o livro que vai apresentar a seus compatriotas europeus. Fotografias com suas impressões da natureza brasileira e dois textos de apresentação - um do professor Paulo de Medeiros, da Universidade de Utrecht na Holanda, e outro da professora Walnice Nogueira Galvão, da USP - completam a obra.

Mas foi antes de levar a poesia traduzida de Manoel de Barros às casas editoriais da Alemanha para publicação que Britta viveu com Sofia o "ponto alto de toda essa história": o encontro pessoal com o poeta, na casa dele. Conversas e visitas ao longo de quatro dias deram às tradutoras a dimensão concreta da simplicidade e despojamento, que, trabalhados com esmero e meticulosidade, aparecem aos leitores da poesia de Manoel. Ele, aliás, mesmo sem entender a língua alemã - "fala melhor a língua das abelhas" -, ouviu da boca de suas mais novas tradutoras seus versos recitados no idioma estrangeiro. E aprovou.

QUEM É

MANOEL DE BARROS

POETA

"Doce de coco", assim Guimarães Rosa definiu a obra do advogado e fazendeiro Manoel Wenceslau Leite de Barros, nascido em Cuiabá (1916). A natureza é a maior inspiração do autor de, entre outros, Compêndio para Uso dos Pássaros, Poemas Rupestres e O Fazedor de Amanhecer.

OBRAS TRADUZIDAS

Silêncio de Chão - Schweigen vom Erdboden

Candura de Fontes - Reinheit von Quellen

Desver o Mundo - die Welt entsehen

Vadiações com as Palavras - Herumtreibereien mit den Wörtern

Uma linguagem de Primavera - eine Sprache von Frühling

Florilégio de Abandono - Blumenbündel aus Verlassenheit

Caminho com as Novas Palavras - neue Wörterwege

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