Ode ao Malandro

Ode ao Malandro

Após 20 anos, Tarcísio está de volta às telas em comédia

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2011 | 00h00

Há 20 anos afastado do cinema, Tarcísio Meira celebra a volta na comédia Não se Preocupe, Nada Vai dar Certo, de Hugo Carvana. "Ele me ofereceu esse papel irresistível. E eu vi que o cinema feito hoje no Brasil pode, sim, ser um enorme prazer. É tudo mais simples e mais profissional. Só estou estranhando a organização desse lançamento, com tantas entrevistas. As pessoas fazem as mesmas perguntas e a tendência da gente é dar as mesmas respostas. Vão dizer que eu me repito."

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Hugo Carvana fez muitos filmes para celebrar o malandro carioca. Não se Preocupe não deixa agora de celebrar a malandragem do ator. O filme é uma ode à arte da representação. Tarcísio e Gregório Duvivier interpretam pai e filho. Quando o filho vai preso, o pai representa um papel para provar sua inocência. "Mais do que a recompensa e a celebridade, o prazer da representação é aqui uma descoberta individual. Meu personagem descobre o prazer solitário de representar, e de representar bem. A liberdade do filho é sua maior recompensa."

Tarcísio reconhece que é muito mais um ator de TV, de novela, embora tenha começado no teatro. Ele não esquece até hoje o elogio de Décio de Almeida Prado, que o viu num espetáculo amador e escreveu que "o garoto" estava pronto para ser profissional. O currículo de novelas é extenso - incluindo o papel em Insensato Coração, que ainda está no ar. "Meu personagem teve uma participação maior que a prevista, mas morreu, é definitivo. Não volto mais para alguma surpresa final, embora, em novela, seja sempre difícil afirmar uma coisa dessas. Marcello Mastroianni disse que a novela brasileira era a única obra aberta que reconhecia. Dependendo do público e do autor, as coisas sempre podem mudar."

Embora tenha feito poucos papéis no cinema, ele se orgulha dos filmes que fez - e dos diretores com quem trabalhou. Glauber Rocha (Idade da Terra), Walter Hugo Khouri (Eu), Anselmo Duarte (Quelé do Pajeú, "Ele era uma figura"), Carlos Coimbra (Independência ou Morte). "São filmes muito diversos um dos outros e justamente a diversidade faz sua riqueza." Ele lembra as dificuldades de representar D. Pedro I. "Pensa que é fácil montar num cavalo e gritar "Independência ou Morte!" desembainhando a espada? A ponta da espada atingiu o cavalo e ele ficou alerta pelo resto do filme. Ouvia o som da espada e relinchava."

Completam-se este mês 30 anos da morte de Glauber Rocha. Tarcísio lembra a filmagem de Idade da Terra. "Ele podia ser confuso, mas era gênio. E era convincente. Se Glauber quisesse, convencia a gente de que amarelo é verde." O mais polêmico autor do cinema brasileiro faz falta. "Pensa, se o Glauber estivesse vivo, e ainda fazendo televisão, como ele ia ter assunto para fustigar os políticos e a burguesia nacional." Tarcísio adorou a experiência de Não se Preocupe. Ao contrário do título do filme, espera que tudo dê certo. Como caipira que é, ele só conta as horas para voltar para sua fazenda no interior de São Paulo. "Aquilo é que é vida. Lá sou mais eu", acrescenta.

NÃO SE PREOCUPE, NADA VAI DAR CERTO

Direção: Hugo Carvana. Gênero: Comédia (Brasil/2009, 99 minutos). Censura: 12 anos.

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