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Ode a Schumann nos seus 200 anos

O francês Philippe Graffin reverencia o mestre alemão ao lançar sua versão para violino do concerto para cello

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2011 | 00h00

Transcrições e arranjos de uma obra surgem, claro, após a versão original. Mas pode kafkianamente acontecer o contrário. É exceção à regrinha o concerto para violoncelo e orquestra opus 129 de Robert Schumann (1810-1856), composto em 1850, junto com sua Sinfonia Renana, logo depois que assumiu a direção musical da cidade de Düsseldorf. A primeira execução pública ocorreu na versão para violino e orquestra, que o próprio Schumann fez um ano depois, a pedido do amigo violinista Joseph Joachim. O original ficou na gaveta e só estreou em 1860, quatro anos após sua morte.

Nas décadas seguintes, o original transformou-se numa das obras mais importantes do repertório concertante para violoncelo, que não é lá muito extenso. Afinal, ele assinara o único grande concerto romântico para o instrumento, estrategicamente postado entre os de Haydn, no fim do século 18, e os da segunda metade do século 19 (Saint-Saëns, Lalo e Dvórak).

Garimpagem de aniversário. Em 2010, quando foram comemorados os 200 anos de seu nascimento, o violinista francês Philippe Graffin, de 46 anos, exumou essa interessante versão para violino do concerto para cello, recém-lançada pelo selo inglês Onyx no mercado internacional. Os três movimentos são encadeados: um memorável Nich schnell, ou sem pressa; um Langsam, ou lentamente, uma bela elegia; e o final Sehr lebhaft, ou muito vivo. Por isso mesmo, Schumann não o chamou de concerto, mas de "konzertstück", ou seja, peça de concerto. Há um entrelaçamento contínuo entre solista e orquestra, além de uma declarada intenção vocal na escrita do violoncelo, instrumento que, aliás, é um dos que melhor reproduzem as inflexões da voz humana.

A parte de violoncelo também explora demais a região grave do instrumento, sobretudo na cadência final. E isso, raciocina a pesquisadora francesa Brigitte François-Sappey, pode ter provocado desconforto para os primeiros violoncelistas que se aproximaram da partitura - seria a razão para ter ficado inédita durante seis anos, enquanto a transcrição para violino era tocada por Joachim? É possível.

Acompanhado pela Orquestra Filarmônica da Rádio Alemã das cidades de Saarbrücken e Kaiserslauttern, regida pelo também violinista Christoph Poppen, Graffin oferece uma leitura apaixonante do concerto. Esqueça os riquíssimos harmônicos do violoncelo no grave e o brilho característico do instrumento no agudo aveludado. E os substitua pela agilidade do violino e seu timbre mais incisivo, que torna a obra mais concertante, se é que se pode dizer isso. O fato é que ela soa mais virtuosística, talvez pela aceleração dos andamentos (o primeiro, em vez de sem pressa, soa como "com alguma pressa", e o terceiro é de fato presto).

Além da amizade com Joachim, um dos maiores violinistas da Europa naquele momento, o fato de a orquestra de Düsseldorf possuir um excepcional "concertmeister", ou spalla, levou Schumann a relembrar sua paixão de juventude por Paganini. E o instrumento passou a ocupar lugar de destaque nas obras de seus últimos anos, antes de a loucura instalar-se, em 1854: escreveu até acompanhamento de piano para as seis suítes para cello solo de Bach e os 24 Caprichos de Paganini.

Foi para seu spalla que compôs algumas obras camerísticas, entre elas as duas primeiras sonatas. A segunda delas, opus 121, é particularmente ambiciosa, em seus mais de 30 minutos e quatro movimentos. Graffin recorre, no CD, à sua parceira de sempre, Claire Désert, para uma execução de excelente qualidade.

Pedra de toque. Curiosamente, o violino não toma claramente a dianteira; permanece quase sempre no registro médio, e faz da expressividade a pedra de toque de uma das mais belas sonatas românticas do repertório. Sua mulher e notável pianista Clara estreou a sonata em 1853 ao lado de Joseph Joachim - um duo que percorreria toda a Europa nas décadas seguintes em concertos.

Clara, aliás, numa boa lembrança de Graffin, tem três de seus romances para violino e piano, opus 22, incluídos neste CD bastante atraente. As três peças, compostas em 1853 e dedicadas ao novo parceiro camerístico Joachim, são mais do que meros exercícios - mereceriam ser mais tocadas e gravadas. Ela compôs pouco porque, como escreveu Robert em seu diário, "ter filhos e um marido que vive sempre no mundo do imaginário a impede de ser compositora (...) fico constrangido ao pensar que tantas ideias profundas perderam-se porque ela não pôde desenvolvê-las".

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